Não sou historiador. Perdoem me então a ousadia de escrever algo da história.Mas como ando sempre nas prosas e poemas " de cabeça na lua" sinto de quando em vez necessidade de baixar ao terreno humano.As obras apresentadas são todas de artistas santomenses e podem ser vistas neste endereço:http://www.artafrica.info/html/paises/saotome.php
Foto do arquivo de Kimangola
ENQUADRAMENTO GEOGRÁFICO NO CONTINENTE AFRICANO
Partindo do pressuposto de que não são só os factos políticos que determinam a evolução humana sendo eles mais causas e consequências do desenvolvimento das instituições e ideologias que por sua vez são fortemente influenciadas pela constância das condições do meio ambiente que permanentemente envolve qualquer ser humano considera-se que um historiador remetido ao uso exclusivo de dados históricos, limita o seu campo de visão e no caso específico do continente Africano agravado pela escassez de documentos escritos, obrigatórias se tornam as abordagens em diálogos interdisciplinares contínuos. A arqueologia certamente terá um papel muito importante a desempenhar no caminho da aproximação à verdade.
A geografia e a história explicam muito do que é África. É o único continente que se estende pelas zonas temperadas do Norte e do Sul; possui uma grande área central tropical no meio de duas estreitas zonas temperadas, uma a norte outra a sul.
Quanto à história do ser humano aponta-se África como o local onde há sete milhões de anos as linhas evolucionárias dos primatas e dos pré-hominídeos divergiram.
As ilhas de São Tomé , Príncipe , situam-se no Golfo da Guiné , fazem parte de um conjunto de aflorantes vulcânicos no prolongamento da cordilheira dos Camarões , centro-oeste da África, Oceano Atlântico , litoral recortado por baías e escarpas , interior montanhoso com uma área de 964 km² de clima equatorial chuvoso .

DESCOBERTA - CLIMA – POVOAMENTO
Terá sido durante a vigência de um contrato entre a Coroa portuguesa e o mercador Fernão Gomes, que estas ilhas do Golfo da Guiné foram descobertas, no início da década de 1470. Era concedido a Fernão Gomes o monopólio do Comércio na Costa da Guiné. Devido à sua localização possuem características equatoriais no seu clima e vegetação. O clima quente e húmido, e a vegetação exuberante daí resultantes, têm profundas consequências na colonização das ilhas e na vida e organização das populações que ali se instalam.
A primeira ilha a ser ocupada é a de São Tomé. Não é a maior ilha mas possui uma melhor colocação na circulação de ventos e correntes e por estar mais afastada do continente previa-se a sua utilização como escala, o que veio a comprovar-se , durante os séculos seguintes .Com um relevo menos agreste, rica de cursos de água e um clima menos “escaldante” do que o de Fernando Pó e aparentemente não habitada, facilitava a possibilidade de colonização com terras fáceis de trabalhar.
Aquando da chegada dos portugueses, provavelmente em 21 de Dezembro de 1471, transforma-se desde logo no núcleo colonizador que se espalha pelas feitorias da Guiné, afirmando-se como um ponto importante do tráfico negreiro para as Américas e Brasil, e como produtora de elevado volume de açúcares servindo os principais portos europeus da época.
Convenhamos, a expansão portuguesa não é pertença exclusiva dos portugueses, pois desde cedo recorreram a técnicas, a capitais e especialistas estrangeiros. Reconheça-se no entanto a capacidade para reconhecer e usar os meios técnicos avançados e que se apropriavam aos objectivos a atingir. Com a crescente procura do açúcar, no mercado europeu, a partir dos finais do século XV, abriu-se um quadro económico, ditado pelo objectivo central do processo colonizador, dando origem ao “ ciclo do açúcar” que passou a ser o motor da economia.
Um factor fundamental para o desenvolvimento da produção açucareira, baseou-se sem dúvida na existência de mão de obra abundante e barata. Assim ao comércio transariano de escravos negros praticado pelos Árabes em direcção ao Mediterrâneo, junta se o comércio de escravos negros africanos promovido e desenvolvido pelos europeus.
São Tomé transforma-se num espaço não só de “experimentação” de plantas importadas, mas também espaço de miscigenação por excelência.
Eva Carvalho
CICLO DO AÇUCAR
Colonização
Este período do ciclo do açúcar – idade colonial/ período de resistência ( 1500-1822) e que desde o seu inicio coincide com a importação de mão-de obra saída da costa ocidental africana, para incremento da cultura da cana-de-açucar, trazida provavelmente da ilha da Madeira assim como a organização em Capitania como atesta a carta régia de 24 de Setembro de 1485 do rei de Portugal D. João II.
Iniciava se assim nestas ilhas o sistema de trabalho escravo constituindo se São Tomé e Príncipe também como entreposto comercial do tráfego de escravos. No intuito de aumentar a produção, foram concedidos um grande número de privilégios aos portugueses na sua maioria degradados e filhos dos judeus arrancados aos seus pais , oriundos dos territórios sob controlo português . No entanto as condições do clima equatorial provocava nos europeus altos índices de mortandade e obstava à vinda de mais gente. Para além de portugueses chegam também castelhanos, franceses e genoveses.
O grupo de Africanos que se começa a formar não é homogéneo em virtude das diferentes proveniências: do Benim, Camerões, Guiné, Nigéria, Angola, etc.
Um clima de agitação social acompanha desde o princípio todo este processo. Factores de ordem interna e externa manifestam se constantemente.
Manuel Ceita Dias dos Ramos
Classes Sociais
Por um lado os senhores feudais, ricos proprietários que são os donos dos meios de produção que não olham a meios para sacar o lucro; junte se o Clero, padres católicos que acompanham as expedições militares e que ao longo do processo colonial tiveram posição bem distinta da doutrina que pregavam. Como classe abastada que na verdade era este Clero esteve quase sempre rivalizando com os ricos proprietários.
Uma classe branca ( colonos ) não proprietários e alguns mestiços pois emanara do Rei a recomendação do bom tratamento aos filhos dos judeus, mulatos que pudessem servir ofícios como os brancos. Convém aqui apontar a data de 1524 – concessão do primeiro foral ao arquipélago, mais concretamente à ilha de São Tomé, a existência real do primeiro grupo de mulatos , os filhos da terra, que se constituem como fração minoritária de africanos livres. A criação deste grupo mestiço, pelos portugueses, tornou se indispensável tanto para o povoamento das ilhas, como para a constituição de um grupo social adaptado ao contexto ecológico local, afirmando se como único grupo capaz de assegurar a gestão dos projectos dos portugueses. Porém este movimento acabou por servir também os interesses dos africanos pois criavam se seres mestiços culturalmente marcados pela família africana, o que lhes assegurava a sua sociabilização. Do casamento dos comerciantes europeus com as filhas dos africanos de estatuto elevado, nasciam estes mulatos. Os mulatos não possuem uma família europeia, mesmo se o pai – geralmente branco - está presente; a família é da mãe africana. Tornam se num grupo de pessoas possantes, têm vinte a cinquenta escravos cada um
Num ínfimo escalão a classe social mais numerosa, dos escravos, muito heterogénea na sua composição, com características físicas, culturais, de língua dos seus elementos, bastante diferenciadas, comprovando a sua proveniência de vários pontos da costa ocidental africana. A mais desumana exploração que sobre eles se abatia, funcionava como um elo de ligação. A estes escravos propriedade dos moradores da ilha de São Tomé, é necessário juntar outros escravos negros, os escravos de resgate.
Todos estes grupos africanos de interesses divergentes e por vezes contraditório, participam de forma dinâmica no povoamento e na colonização da ilha, seja sob orientação dos europeus, seja mobilizando se em função dos seus próprios objectivos.

F
elisberto da Graça Castilho
O Engenho
O engenho célula base de todo o sistema produtivo, não significa só o moinho onde se processava as várias fases da produção do açúcar, designava um conjunto complexo de construções, espaços e homens indispensáveis ao próprio processo de produção. Constituído pelo moinho , elemento central , pelas casas de madeira do proprietário e dos mestres do açúcar, situadas à volta do moinho, pelas habitações dos escravos, mais afastadas, na orla da floresta circundante, rodeadas de uma pequena horta, pelos edifícios necessários ao fabrico e à armazenagem do açúcar e às outras actividades indispensáveis à vida da população, e ainda pelas plantações de cana sacarina, situados nos campos mais férteis e melhor irrigados.
Formam se “domínios”, no interior dos quais se articulava um duplo sistema: por um lado, uma produção agrícola destinada à subsistência da mão-de-obra escrava e ao aprovisionamento dos navios e, por outro, a monocultura da cana e fabrico do açúcar. As várias concessões ou “sesmarias” e algumas cartas de alforria que ao longo do século XVI foram sendo produzidas pelos portugueses , ajudam ao fabrico destes domínios.
Armindo Machado
OS ESCRAVOS
Debrucemo nos agora sobre o quotidiano dos escravos e seu trabalho nestes domínios. Cada habitante compra escravos negros com as suas negras e emprega os ( aos casais ) para cultivar as terras fazendo as plantações. Há homens ricos que possuem até cerca de trezentos negros e negras a trabalhar para si toda a semana excepto ao sábado, onde neste dia os escravos semeiam para si, milho zaburro, raízes de inhame e muitas hortaliças. Estes homens ricos não vestem , não alimentam nem fazem casas , aos escravos. São os próprios escravos que se encarregam destas funções. O que pode parecer um regime de trabalho ditado por uma tolerância ou humanismo, nada mais é do que um sistema para optimização dos lucros. Esta técnica não provém dos portugueses mas sim uma adopção do já praticado em África, sendo a maneira mais capaz de permitir dispor de uma força de trabalho numerosa e auto-alimentada.. A cultura da planta desenrolava se ao longo de todo o ano sendo o escravo continuamente mobilizado para os inúmeros, longos e pesados trabalhos agrícolas a que se juntavam as duras tarefas destinadas a transformar a cana em açúcar. Convém não esquecer que este ciclo de trabalho começava já no abate das árvores e a sua redução a cinzas que serviam como fertilizantes da terra assim como na preparação dos terrenos para a plantação.
O processo de povoamento organizado pelos Portugueses é orientado para as regiões litorais do norte e do nordeste de São Tomé, por aí se encontrarem as melhores condições para introduzir e desenvolver a cultura, produção e posterior comercialização do açucar. Este cenário deixava vastas áreas livres quer no interior ou noutras zonas despovoadas que viriam a ser ocupadas pelos escravos fugidos das plantações, quer dizer que o processo de povoamento do interior da ilha é consequência da decisão dos Africanos e contra os portugueses. As duríssimas condições de vida e de trabalho estavam na base destas fugas. Foi daqui, mais tarde que partiram os ataques aos engenhos e às regiões sob controlo português.
Entramos assim no início da segunda metade do século XVI, com duas particularidades a destacarem se: uma agitação social provocada pelos Mulatos ,” os filhos da terra”, descontentes com a discriminação política de que eram alvos em benefício dos Portugueses e a ameaça negra que vinha do mato provocam um clima de insegurança. No último quartel do século intensificam se as revoltas que se multiplicam nas roças e ataques cada vez mais frequentes aos engenhos e ás plantações.
No ano de 1595 um negro da ilha de São Tomé, chamado Amador proclamou se rei da ilha. Amador fora escravo de D.Ferdinand , comandava um exército organizado em torno de cinco chefes principais, movimentando se segundo um plano definido para atacar os engenhos e a cidade. O choque pôs frente a frente uma grande massa de homens armados de arcos e flechas, contra um número mais reduzido, armados com arcabuzes. A vitória coube como quase sempre no continente africano, aos europeus cujas tropas incluíam Negros e Mulatos. Derrotados os cinco chefes africanos decidem entregar aos europeus, Amador, que o enforcaram.
Kwame de SousaOS SÉCULOS XVII E XVIII
Instabilidade
Na entrada para o século XVII, grande parte dos proprietários ricos começam a emigrar para o Brasil que desponta como nova fonte de produção de açúcar. O clima de insegurança e instabilidade vivido com os sucessivos ataques dos “ negros alevantados” e a incapacidade das autoridades portuguesas em controlar o espaço santomense, agora ocupado pelos Africanos constitui se como motivo principal do deslocamento para o Brasil. Agravando aquela situação, a corrupção e a desorganização dos poderes públicos, a discórdia permanente entre as autoridades religiosas e civis, o ataque dos corsários e ainda a doença que ataca a cana sacarina, provocando a destruição das colheitas.
São Tomé e Príncipe afirma se como um espaço privilegiado, dada as suas características ecológicas e posição geográfica, para:
1) Centros de introdução e “ensaio” de plantas e de técnicas agrícolas novas;
2) Pontos de apoio aos navios, de início apenas portugueses, depois também estrangeiros, que ali procuram se abastecer;
3) “Armazéns” destinados à redistribuição de escravos vindos do continente e destinados essencialmente ao Novo Mundo.
Ressalta também claramente desta época, um sistema de produção , já consolidado, que era o sustento de todos que habitavam as ilhas e dos abastecimentos em víveres aos navios, vindo mais uma vez da classe escrava, que produzia para além do açúcar, inhames, batata doce, milho em suma a produção agrícola de sustento.
Começa se a sedimentar a combinação entre elementos culturais africanos de origem diversa e da adesão a propostas europeias após duas ou três gerações, uma parte do poder económico do arquipélago fica nas mãos de uma população crioula nascida deste encontro: os “forros”, que são a característica principal de São Tomé e Príncipe em relação às outras colónias, com seu próprio idioma.
O Negro como mercadoria
Iniciava se uma nova era , fim da primeira fase da colonização. Com o chamamento do Brasil e do declínio da produção açucareira para os colonialistas a importância da ilha radicava no facto de servir de entreposto de escravos. Todos os navios com destino ao Brasil via São Tomé e Príncipe, eram obrigados a pagar impostos, que forneciam ao fisco português receitas consideráveis. Milhões de africanos foram transportados, em condições desumanas , sobretudo para as Américas durante os séculos XVII e XVIII principalmente.
Ao iniciar se a segunda metade do século XVIII, já as ilhas de São Tomé e Príncipe vinham sendo um local de contínua confluência de povos, raças e culturas, cujas consequências se traduziam em complexos fenómenos socioculturais. Entre eles sobressaíam a mestiçagem, a assimilação e a rejeição culturais que , por vezes, explodiam em violentos movimentos de ruptura. Dos povos e das culturas transferidos, das línguas postas em convívio, haviam se originado importantes sínteses, outro povo.
A economia de São Tomé e Príncipe atravessa assim um período de estagnação ,pelos motivos já apontados. É notória a reafricanização da população. Do ponto de vista numérico os “ filhos da terra” tornam se o elemento predominante. Fortalecem as suas posições económico-sociais sem contudo serem um grupo heterogéneo. Formou se uma aristocracia crioula que se empenhava em enviar seus filhos para seminários no Brasil e em Portugal.
Edilson Chong Dias
O CICLO DO CAFÉ E CACAU
A Roça
No século XIX com a introdução das culturas do café e do cacau inicia se aqui uma terceira fase da colonização das ilhas de São Tomé e Príncipe; com a expropriação fraudulenta e violenta das propriedades aos locais. A necessidade mais uma vez de mão-de-obra é premente. A população nativa recusa se a trabalhar nas plantações. Existe no entanto um dado novo na conjuntura mundial e oficialmente (1826) o governo de Lisboa promulga o código para conter o tráfego de escravos, mas só na década de 80 a escravatura é abolida. Os trabalhadores não são mais escravos mas “ trabalhadores contratuais voluntários” trazidos das outras colónias portuguesas (Angola, Cabo Verde e Moçambique) facto que origina o aparecimento das unidades de produção de cacau e café denominadas roças. , A roça é um espaço agrícola, organizam uma nova base de povoamento e colonização, sendo constituída pela casa da administração, a sanzala dos trabalhadores, os armazéns, os fermentadores e secadores de produtos, o hospital formando autênticas povoações.
Abolição da escravatura
A frente do boicote internacional de São Tomé e Príncipe decretado em 1909 após as divulgações feitas sobre o trabalho forçado dos “ trabalhadores contratuais”, as roças “humanisam-se” e o rendimento diminui. No fim dos anos 40, o governador está determinado a regularizar o problema da mão de obra, forçando os “forros” ao trabalho nas “roças”.
Nacionalismo
A tensão provoca então o massacre de Batepá, a 3 de Fevereiro de 1953, que teria feito mais de 1.000 mortes por tortura eléctrica e afogamento, principalmente. Este episódio marca o início do nacionalismo santomense, com a criação, em 1960 pela elite, forros em exílio do CLSTP (Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe) que em seguida, em 1974, virá a ser o MLSTP (Movimento de libertação de São Tomé e Príncipe).
José Manuel Mendonça Gracias