2009-07-05

Mundo sem Abelhas

Boddan-zwir


Em todas as velhas e imutáveis caras, enfatuadas, reconheço um leve toque humano, um pleno tempo de aridez corre lhes nas veias.
Nos arrabaldes da ainda habitável cidade, embora haja um sentido báquico predominante, um ou outro grito de alegria de criança vai rareando, são as mães que mais choram os porquês.
Ao som da sirene fiquei desperto e ouvi chover, os corpos transeuntes cruzam se uns com os outros, parecem me de olhos cerrados, palas cobrem suas orelhas e os placards publicitários fazem promessas sobre o estado perfeito, e não sei porquê, em todos eles vejo aves de rapina retratadas com sumptuosas vestes. Mesmo ali ao lado, ficara já com os olhos feridos perante o brilho do aço em faca, espetada num corpo, que por acaso até era a “mulher dele”. Um homem defendera a “sua honra”, a sua propriedade que será uma forma de “Mulherclavagismo”, invocando Abraxas, grave culpa pulsando entre diáfanas canduras.
No outro dia lembrei me: as Mães que não amamentam seus filhos artificializam em boião, alimento préfabricado, amam verdadeiramente suas crias? Ou o problema estético ultrapassa o afectivo daí essa frieza humana?
Os portugueses são pobres, mas felizes, diz a Socióloga encartada e destinos espirituais para férias são a nova moda dizem os promotores.
O perigo da extinção das abelhas é real. O Mundo sem abelhas não será o mesmo e a catástrofe seria fatal. O ecosistema seria alterado e daria razão a Albert Einstein que afirmou que não resistiríamos mais de 4 dias sem abelhas.
Deus salve a Rainha ( a das abelhas claro)!

2009-07-01

Negra claridade




espelhos

analógicos

opto

imaginativamente

simultâneo

com

electrofisiologia

equívoco da

certeza

Sophia meu amor

mesmo se

sofista

negra

claridade.

2009-06-24

Caricaturando… já se sâabe!

Caricatura feita porMário Roberto



Gande sacana!
O traço arisco,
corisco,
fugindo
ainda agora
era nada,
imbora lá,
que o movimento
igual ao açor
várias asas
fumarolam
lavas,
pedras,
Pétreas.
Baleias… ais…
Vais te aguintar?
Mão artista
acerta o olhar,
para lá do mar.
Ta´d’ardêr!

2009-06-20

RAZÃO EXPLOSÃO


na lufada do
assalto
o anónimo
esgueirou se
por trinchas e nesgas
a linhagem
dos fidalgos
distraída
cortejava donzelas
pandemónio
gerado
o povo
irado
turba sem freio
eu no meio
os rosais
abandonados
abandono dos deuses
a facção
cheia de tesão
militar
estropia
torto
a direito
sempre torto
no buraco
da razão
explosão

2009-06-13

Círculos Viciosos



OUVI UM DIA DIZER: que o pensamento fala quando escuta...

A linguagem do silêncio é a antecâmera do discurso, sendo os dois, amantes empedernidos, quase em fúria.
Portanto não será estranho dizer que o modo sublime e profundo do ser está, também intrincado com o pensamento a falar.
Poucos escutam...quase nenhuns...
Flutuamos e movemo nos, rigorosamente no limiar de um mero conhecimento verbal, que está sempre disponível. Mas não questionamos e assim perde se a “presença”.
Como serei “ ser genuíno” se nunca questiono?
Curioso é que quando nos calamos, tudo vibra impregnado do originarium, e o campo do não dito é mais amplo e criativo precisamente por ser não dito.A ofensa verbal/ palavreal nunca chega a aparecer. Não há mentiras nem desenganos
Pois é, os círculos viciosos “drogam nos”, bla, bla, bla, para aqui, bla,bla,bla, para ali, eruditos e palavrosos, somos uns Ases.
será assim um pedido desmedido desejar um bocadinho mais de ser nas nossas vidas?

NOUTRO DIA OUVI DIZER: no sentido do ser não há “círculos viciosos”...

2009-05-31

Evasiva , Elusão e a Cesta de Fruta



Uma cesta de fruta no requebro da anca, poisada, frutos amadurecendo na boca pasmada de Elusão, enquanto Evasiva ondulava calçada acima em direcão ao Mercado da Fruta.
Elusão magicava aproximações desde que começara a sentir palpitações nos seus dentros para ela. As distâncias de Evasiva eram enormes, virgem se mantinha, guardava se para aquele melhor momento, ouvira da velha Guiana sua criadora, a promessa que assim seria.
Elusão rapaz guerreiro, trabalha de sol a sol, é porém ingénuo, nada sabe de tais desígnios, conhece porém de ver, as aves fujidias e tem a constante pulsão para ela e cego de ver, idealiza sucessos, sonhos de amor perfumados.
E o tempo passando... as formas amadurecendo em Evasiva... algo em Elusão crescia... agora que aprendera de tanto ver o requebrar, sabia de alguns porquês, e arquitectava com artes primorosas a forma da abordagem.
Evasiva na sua imcumbência do negócio da fruta, leva frutos amadurecidos, e traz uma leveza ainda maior no seu jogo de ancas, depois da cesta vazia, e distraída não se apercebe dos apetites que desperta. Só tem ouvidos e olhos para sua criadora, a velha Guiana ,que a arrancara dos dentes da fera. Evasiva fora criança abandonada em meio de uma grande selva. Do domínio dos animais buscara a velha Guiana o alimento nas tetas de uma felina, assim foram os alicerces de Evasiva.
Um dia, o que parecia ser o tal melhor momento, Evasiva olhara nos olhos de Elusão, pela primeira vez; surpreso estranhou o porquê do olhar de cesta vazia, mas aceitou o sinal recebido e jogou seu corpo na calçada quente feito tapete para Evasiva que descalça não recusou pôr sua planta do pé, nos lábios dele, recebendo um beijo virginal de quentura maior que a calçada e olhando para baixo viu brilhos oblíquos nos olhos de Elusão.
Confusa fugiu para junto de Guiana, querendo saber se era aquele o tal momento e o porquê de tão desordenado palpitar.
A velha Guiana não estava no lugar de sempre, naquele dia conhecera , lá em baixo, junto ao mar um príncipe jovem chegado na maré vazia que a carregou nos braços amorosos da maré cheia.
Ficava Evasiva sem respostas, os planos de Elusão foram se por águas de mar abaixo e o cesto de fruta sem anca requebro para viver.

Moral: Nem sempre as profecias se realizam e o amor surge donde menos se espera.

2009-05-22

VUL VA (CÂ) NICA



Menstrual para afogar
as forças testiculares e telúricas do Pai.
A Mãe.
Caverna ou cova vulva mater revisitada,
de uma outra boca, verbo da boca
crua e doce.
Vulva virgem e viúva, negra da aranha?
Para não dizer lábios de língua lésbica dos
LÁBIOS DA VULVA..
A vagina é viva por e de Vénus,
vitalidade vúlvica rasga os ventres.
No minete, será Vulcano?
Ora, ora, uma vulva sempre virgem,
a Mariana, apesar dos filhos dos filhos…
A visão vincula as vulvas ou o contrário?
De seiva vermelha vincada é regular ou não.
Alguns dizem:
Vulva vampírica de dentes cerrados.
O vampiro suga, não jorra sangue.
Um pennis mastro, para navegar…
uma ideia dos oceânicos…
vulva de fogo queimando…
O QUÊ ???
A volva da serpente se dentada é víbora.
Fenda.
Fendada se em mãos de fada.
Fendida se em mãos de ferida.




2009-05-09

…a um qualquer professor…

Mi' guili

um desejo, reprimido, gradualmente passivo se torna,
activa a sombra dele mesmo.
no paraíso perdido : a razão, aos seus olhos, o desejo tinha sido expulso,
um arcanjo primitivo chamado satanás, dissera,
alguém roubara o abismo para fazer um céu.
a energia era o prazer eterno.
a contemplação o bem da razão.
houvera nuvens famintas sobre o abismo, nascera assim o caminho do perigo,
chegando ao rio circular do tempo, fluindo entre eva e adão, vê se ser sempre
o mesmo rio, sempre o mutável rio…
caiem as folhas todas, soltas, de um todo resto.
o tempo deu nos teias nos olhos e corpos,
os enredos em insignificâncias ilusionam mundos
eventualmente,
um discurso ornamentado de sims , nãos e tal vezes e outras nuances.
tropeçado na pedra, que não a filosofal, aquela outra… a vulgar da suada calçada,
mãos calosas,
elaborachorosas queixas,
datas… nomes… datas… ismos… inodoros conteúdos.
uma vida sábiamente ondulada em ritmanálise
desembaraçamento da alma, das falsas promessas,
exige se

2009-05-02

GUERRA E PAZ - Continuidade da Barbárie


1 – INTRODUÇÃO
O mais irresolvido dos problemas é o ser humano, uma vez que põe ainda em jogo todas as suas relações com a existência.
A dualidade que acompanha o ser humano desde os primórdios parece estar de pedra e cal e enraizado na nossa memória cognitiva colectiva.
A animalidade é ou não uma característica humana? A Antropologia do bem e do mal, domina-nos? Admitamos que essa é a nossa “realidade” . A história dá-nos múltiplos exemplos desta animalidade, este exercício da violência que parece sempre atrair o ser humano, e evocando as mais díspares “ razões” manifesta-se continuamente.
Na Mitologia nem mesmo com a “existência” de vários Deuses, como entidades castigadoras ou recompensadoras não funcionou. Os Gregos juntaram a estes Deuses o Logos , introduzindo a Filosofia que parecia ser a panaceia de todos os males, mas na verdade e concretamente introduziu novos caminhos para a dialéctica mas a animalidade continuava viva e recomendava-se.
O Cristianismo, encetando a viagem do monoteísmo, apresentando-nos o Único e Verdadeiro Deus e realizando o acto expiador da carne ( Jesus Cristo e a Ressurreição), na esperança de que havendo um Deus real que castigava ( O Inferno) ou recompensava ( Paraíso) que o animal desapareceria, cedo ficou demonstrado que esta animalidade era também parte intrínseca da própria Religião e da qual citarei as manifestações da Inquisição.
Mais perto de nós Kant também chega à conclusão que “… a animalidade é, nas suas expressões, anterior e no fundo mais potente do que a pura humanidade…”
1, embora preconizasse o caminho para a paz perpétua. A história que veio depois de Kant demonstra–nos até a saciedade a existência desta animalidade.
Discutimos até ao infinito as utopias políticas mais variadas, demasiados ocupados em fazer triunfar este ou aquele sistema social ou esta ou aquela doutrina mas não tratamos do problema da felicidade da eliminação da animalidade pois que reconhecidamente ela está em nós.
Não cabe aqui nesta reflexão o apontar das soluções, mas tão só uma análise e demonstração da animalidade do ser humano através dos tempos, que parece querer perpetuar-se.

2 – A BARBÁRIE
O pensamento europeu começa com os Gregos. Foi na cultura Grega que teve lugar a “descoberta do espírito” a “ afirmação da consciência” e que foi formulando a procura constante de respostas para o que é - o corpo, a individualidade, o livre arbítrio - e outras funções espirituais.
No processo do mito para o logos, já marcavam presença as manifestações da “animalidade” ou dito de outra forma, uma tendência do ser humano para a violência, uma inclinação para o mal.
Com a chegada da Filosofia e até porque é da cultura grega a apologia de que os bárbaros eram os outros, portanto uma constatação de que existia “ uma barbárie” se partiria para um processo, se pelo menos não da eliminação total, mas um controlo mais eficaz sobre o instinto de violência.
Aristóteles lidou com o movimento real, que é uma questão da experiência comum, Galileu e Newton atingem os seus conceitos teóricos afastados da nossa experiência sensitiva. O ser humano natural e o ser humano artificial continuam a ser as estrelas da companhia numa interminável fobia da elaboração de noções teóricas que nada explicam, segundo Kenneth N. Waltz
2
Num esboço antropológico da barbárie humana convém atentar no desdobramento pelo menos dual que contrapondo o Homo sapiens, temos o Homo demens capaz de delírio, de demência. Segundo Edgar Morin é evidente que a origem desta barbárie humana, encontra se naquele lado “demens”, produtor de delírio, de ódio, de desprezo
3.
As virtualidades da barbárie não foram nem são as mesmas nas diferentes sociedades que este Homo vai edificando. A barbárie não é assim um elemento que acompanha a civilização, é parte integrante dela. A civilização produz barbárie: conquista e dominação. A conquista romana, por exemplo, foi uma das mais bárbaras de toda a Antiguidade: o saque de Corinto na Grécia, o cerco de Numância em Espanha, a destruição de Cartago etc. O Cristianismo com toda a sua construção teológica vai ser protagonista de inúmeras barbáries, será parte activa nas Cruzadas, acompanhará com a bíblia na mão a saga do esclavagismo e para não ser exaustivo, a tenebrosa Inquisição.
Com a nossa entrada no mundo heliocêntrico, que traz consigo novas técnicas, que no plano militar vão tornar o saldo da barbárie substancialmente maior. Seremos mais rápidos e eficazes na arte de tirar a vida a outrem.
A nação, que supostamente é uma invenção europeia será construída sobre a base de uma purificação religiosa e vai adquirir, progressivamente, um carácter étnico. O século XX permitiu-nos medir a barbárie produzida pela ideia de nação quando assente numa vontade de purificação étnica.
No século XVI ao impulso das cidades junta-se a formação de nações modernas, a herança grega que continuava fechada no interior do discurso teológico, retorna agora libertando-se da grilheta teológica ( o pensamento autonomiza-se ) com resultados imediatos no campo das ciências. O Humanismo que vai surgir continua a ter na sua composição a coexistência do sapiens e do demens mais agora que a Ciência irrompe triunfante e pela voz de Descartes preconiza: fazer do ser humano o senhor e possuidor da Natureza. Esta mensagem será retomada por figuras como Buffon e depois por Karl Marx e só bem há pouco tempo, a “ideia” do todo poderoso promoteico se desfez em migalhas. O controlo da natureza que no real é incontrolável, conduz à degradação da biosfera e por consequência da sociedade humana, da vida. Esta forma de barbárie apresenta contornos assustadores: uma barbárie suicidária, seguramente com o Homo demens como protagonista principal. Repare-se no grau de demência do processo do proletariado industrial, uma espécie de Messias, a revolução como o apocalipse, o ajuste de contas e a sociedade sem classes, a salvação terrestre
4.
O exemplo de Napoleão, o fenómeno da Colonização e a primeira Grande Guerra como referências finais.
O problema é assim bastante complexo pois as tendências bárbaras são vizinhas das tendências civilizadoras. Formas refinadas de civilização surgiram também no seio das nações que praticaram e praticam a barbárie. Talvez seja esta a sedução.

3 – CONCLUSÃO
O Éden é sempre adiado. E a posteridade laica da dor cristã será fácil: hegeliana que vê nos tormentos sofridos pelos povos no decurso do tempo as etapas necessárias do espírito que são necessárias percorrer para que se cumpra; marxista que celebra na violência o parto da História e prega o desapossamento das classes exploradoras para alcançar a edificação de uma sociedade perfeita; nietzscheniana que exalta a crueldade e o mal como meios para seleccionar os mais fortes e de melhorar a espécie humana; e em geral, todas as ideologias que determinam a imolação da parte em benefício do todo”.
Pascal Bruckner
Mestre em Filosofia e Doutorado em Letras

BIBLIOGRAFIA
MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Lisboa, Instituto Piaget, 2007.
BRUCKNER, Pascal, A euforia perpétua, Lisboa, Editorial Notícias, 2002.
PHILOSOPHICA, Perspectivas e fronteiras do humano, Lisboa, Edições Colibri, 2008
SNELL, Bruno, A descoberta do espírito, Lisboa, edições 70, 1992.
WALTZ, Kenneth N., Teoria das relações internacionais, Lisboa, Gradiva, 2002.
WATKINS, J.W.N.,Ciência e cepticismo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.
1 KANT, Immanuel, Anthropologie in pragmatischer Hinsicht, Akademie Textausgabe, vol.VII, P.,327.
2 WALTZ, Kenneth N., Teoria das relações internacionais, Lisboa, gradiva, 2002, p.21.
3 MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Lisboa, Instituto Piaget, 2007, p.,10.
4 MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Lisboa, Instituto Piaget, 2007, p.,39.

2009-04-18

AFRICANIDADE ( 1 )

Retrato de Neves de Sousa- por Paiva de Carvalho

Albano Neves e Sousa fazia etnologia pintando ou vice versa. A sua obra assume um valor extraordinário, no contexto da preservação de um património que é de todos. O rigor na retratação dos usos e costumes dos povos observados, aliada à capacidade de observação ao ínfimo pormenor dizem nos também de uma alma sensível transpirando Africanidade por todos os poros. Neves e Sousa pintou, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné,Namíbia seguindo mesmo as raízes que se estenderam para o Brasil. Eu tenho um orgulho do tamanho do Mundo sobre a obra de Neves e Sousa.

Óleo s/ tela- Uma alegoria aos povos lusófonos


Mulher da Guiné- 1972- Óleo s/ tela

Welwitchia Mirabilis. Deserto do Namibe-Óleo s/ tela. 1978


Lavadeiras do Kwanza Sul- Tinta da china
Cabo Verde - Óleo s/ tela
Nota: Obras extraidas do livro : Neves e Sousa- pintor de Angola- 1921 - 1995.

2009-04-12

TERNURA



Num dialecto manso
que detalhe se esgrimiu no céu?
A sombra penetra,
safira,
cicatriz de onde se desprendem as ondas,
corais mordendo o meu sossego.
Sem disfarce,
morria de não semear, o tempo,
por vezes…
Há um rosto, um perfume,
a gravidez da terra protegida,
na saliva da memória um inverso parto,
desenha se, só o chão se espanta.
Que sina sou eu?
Qual a montanha que desci?
Incesto do passado, o passado perdido.
O passado?
O coração não é carne.
Chorei para dentro de mim
o tempo da véspera subtil,
uma simetria horizontal desertou em mim,
o trajecto dissoluto e calcinado,
deixei o sol sobre o verão
num céu que voava.
Um coágulo de saudade.

2009-04-02

ENCURRALADA

Mina


…lentamente balanceada em turbilhão, invisível na sombra, naquela coluna justamente pousada no lado mais brilhante do chão, uma transformação toma forma, uma ameaça do futuro imaginado… talvez um gene da felicidade.

encurralada mas não receosa, inclinando o corpo por ser mais defensivo, aliciante a fenda peitoral mostra-se e visível oferece-se, o olhar, nos olhos da transformação.

Kasbah, sabe que nas funções biológicas, as duas pulsões fundamentais são antagónicas ou bem combinadas. subverterá a verdade e o erro com um complexo de regras, fará predominar a própria opinião, com meios e expedientes fazendo que o branco se torne negro e este naquele.

por um breve momento, algo de indefinido, mas decisivo, altera-se na forma observada, não resistindo desfaz-se, ante o apelo peitoral, em partículas líquidas, já é um rio de emoções que se aproxima.

encurralada… espera o convite…

2009-03-22

Siso Ardente

Da sequência A luta pelo Amor:
Paixões humanas: gozo, 1904 - Alberto Martini

Porquê a poesia e não outro objecto qualquer?
a dor ardente de um siso a crescer, a resposta estava ali a brilhar.
Pontapé no vento a mergulhar em sereno desafio, as maneiras de ser humano. Arranco me estrelas, deito me ao luar , invento me um deus, que me chama de viva voz.
O transparente da janela, observa me os gestos, encontro me parado, o rosto erecto, preso ao teu olhar, dois lábios esmagados, coração a arder mísero mendigo, como se o florir fosse um mal, abrindo sulcos de arrepio ,na nossa eternidade em luta e cio.
Sombra pairando em nós, como um véu pesado, imagens, sonhos versos comovidos.
O meu olhar é um lago, vejo te espelhada, a dormir.
Gostava de te explicar e poder eu próprio compreender: eu seria a palavra, tu o corpo da doce fala, sem recear o mal que me aguardava.
Um meigo jardim, espinhado de rosas, a crueza das coisas, a chuva que arde.
De onde venho?
!!!do uivo entre o abismo e coisa nenhuma onde me apaixono
adolescentemente.


Ps. O dente do siso não está presente em todas as pessoas, algumas vezes porque a pessoa não tem o germe dentário deste dente e outras vezes porque ele não erupcionou por falta de espaço na arcada dental ou por estar na posição "errada" dentro do osso.

2009-03-11

F®icções

De Sousa's
Resolvera estabelecer um limite tácito ao uso das palavras, algumas ficções, pequenas, sorveria vagarosamente, outras guardaria na palma do punho fechado.
Estamos sentados de costas, olhamos portanto dois caminhos.
O dela feito de jardins circulares, felinos passeiam se por lá e de cada vez que o sol sorri há um gemido.
O meu é feito de flores em algodão como o tecido da blusa da mulher que esperava um trem por descarrilar. Primeiro, uma luz, um raio só, por cima do Girassol de costas para o sol, lá ao fundo uma orla nas costas das crianças que brincam com berlindes.
Ao nosso lado, levado nos braços de alguém, um momento de inconsciência, projecta as sílabas que um ditador qualquer esquecera de nos dar.
Não estamos isolados, nem somos, as aves penas, nem os voos rasantes. Basta nos a água fria de encontro aos rostos.
Certas manhãs, ocupado com meus avessos, mais que uma vez, reparara que o Girassol não se virava para o sol; não é que me importasse, o frio era já em mim tanto que a luz da lua me bastava para aquecer. Tu nunca ias para longe e depois da chuva enovelavas te, casca de caracol transformada.
Conte me o seu nascimento, pediu ela.
Não me lembro , disse, depois de pensar um pouco. A única certeza era um espaço com Acácias e Fucsias plantadas e nele me via acordado.
Então fechando os olhos, inventava lhe as palavras desejadas, abertas, criava lhe uma esteira onde ela se deitava de perfil.
Lá fora, a chuva fica mais forte. Tens os cabelos desmanchados, os meus dedos assim o quiseram, beijo te apressadamente na boca e fugimos os dois pela clarabóia, montados no mágico tapete. Regressarás, com o tempo sempre a correr, pelo Mar: espero por ti, os pés molhados na areia seca, três minúsculos caranguejos, passeiam se para lá e para cá, eram a guarda de honra deste solene acontecimento.
Porque nada era claro, ao longo da superfície espelhada da areia, por momentos as ondas estáticas observam o que de estranho lhes parecera, enquanto eu e Krisális em passos furtivos o azul portão fechávamos, atrás de nós.
Do lado de fora da casa um cão rafeiro sentado debaixo do parapeito coberto de Malmequeres amarelos, num aproximado gesto humano, palita os dentes, displicentemente.
Krisális estranhara o observado, mas entra pressurosa, os olhos semicerrados, procurando compreender a penumbra interior, o silêncio do Mar entrava janelas adentro. Krisális enrolada no cobertor verde, agora é noite, pensa, não se vê o Mar, adorava imaginar as casas iluminadas umas dentro de outras com os cantos preenchidos de estrelas, e os querubins entoando suaves cânticos por companhia…

2009-03-01

Amizade? Posse?

Olhares.com


Nenhuma forma de amor tem tanto respeito pela liberdade do outro como a Amizade.
Esta chega a pontos de extrema delicadeza.O amigo não me deve dar explicações. É perfeitamente correcto que eu não as procure. Não devo analisar o seu comportamento, tentar encontrar as suas motivações. Na realidade , na Amizade não há luta. Compete-se por amor pelo sucesso ,pelo erotismo, não pela Amizade. A Amizade é, na sua essência, uma relação entre dois indivíduos isolados, donos de si próprios.
E é um encontro entre iguais.
A Amizade deve ser sempre leve. A Amizade é dádiva ocasional, não bondade permanente. A Amizade requer que não exista nem inveja nem avidez. O que vier é bem vindo.
Na Amizade passou-se da indiferença à alegria.

Isto é uma mensagem para mim, para nós, para eles, para ti...

2009-02-16

Um "Magnífico" Reitor

Pungo Andongo -Angola


O Magnífico Reitor da Universidade de Évora, convenhamos que terá sido pouco magnífico nas afirmações que proferiu numa estação de televisão portuguesa dia (15-02-09) e a propósito da língua portuguesa, no contexto das lusofonias afirmou o seguinte:
-Que tinha estado há pouco tempo em Angola e que tinha reparado que não se falava a língua portuguesa correctamente.
Ora justamente pelas suas responsabilidades ( a posição que o senhor ocupa) acho que o senhor também não falou correctamente o português no que foi logo também referenciado pelo Senhor Joseph Levi , também presente nesse debate televisivo. Aliás o Senhor reconheceu o seu erro ao dizer “ que não era bem aquilo que queria dizer”… reconheça que não usou bem a língua portuguesa.

Senhor Reitor, fique pois ciente que a língua portuguesa está a ser mal falada na Universidade dos Açores ( realidade que conheço), na imprensa escrita e falada, e em qualquer outro lado do planeta onde esteja a acontecer o uso do português se seguirmos à risca a sua linha de pensamento na afirmação- de que em Angola não se fala bem o português-.

Relembro o senhor reitor que a língua portuguesa é uma língua viva, e não serão as cargas nostálgicas que terão poder sobre a vivacidade de uma língua. Se é Viva deixem na viver. Se ela é viva tem que reflectir o meio em que está inserida. Se não ainda hoje por exemplo devíamos era falar o português medieval: “e o que a acusar aja o dobro pêra ssy” não é verdade senhor Reitor?
Se me permite deixo lhe aqui uma mensagem:

Você levou baçula do erro!!

2009-02-11

TEIA DA VIDA



o dia irrompeu triste,
em solidão ficara , partira a noite…
desmamadamente chora a criança
perante o seco seio maternal…
não, não é destes nadas que
quero
falar.
não temos tempo...
encurtemos.
a teia da vida tece e destece nos,
pensamento pele, pensamento ausente,
repito,
nós… à boca das nascentes.
nós… saciamos de tanta água.
que jorra, áridos produzidos.
que dois, humanos, estamos.
corpo escrito,
tacto a tacto,
segredados,
ao ouvido,
o silêncio,
é dor
humana.

2009-02-04

Deusas - Prostitutas - Santas

A Lilitu suméria transitou com esse nome para a mitologia judaica e para os comentários sobre as Escrituras.

A “existência” ou o seu conceito, de uma Deusa Suprema, colocou sempre às religiões uma espécie de instintiva aversão, pois o argumento era a distinção entre o espírito e a carne e que a salvação estava na negação.
O macho através dos sacerdotes negava/dividia a essência natural da divindade feminina, atribuindo a espiritualidade, a sabedoria e a virgindade da deusa a um princípio masculino abstracto e aos seus apetites carnais uma causa feminina.
Negando a santidade ao sexo, as sacerdotizas eram muitas vezes prostitutas[1], negava-se assim a possibilidade de uma mulher ser santa.
Pitágoras, um filósofo do século VI a.C. afirmou:
“ Existe um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem; e outro mau que originou o caos, as trevas e a mulher”. Sem qualquer maldade ou segunda intenção ,pergunto-me , se acaso este Pitágoras não teria sido homosexual?
Mais tarde o cristão São Paulo reforçava desta maneira: “ que o sexo era uma necessidade lamentável e que o melhor era que um homem não tocasse numa mulher”. A ser assim , como se reproduziria o ser humano?
Este “trajecto” de deusa para prostituta, cristalizou bem “gravado” na memória colectiva humana. Para cimentar este conceito foram elaboradas várias histórias ao longo dos tempos, convertidos em mitos, dos quais citarei só dois: Lilith e Eva.
--Lilith a essência da sexualidade depravada, foi criada a partir da metade feminina de Adão ( pois então, o Adão tinha uma feminilidade) ou da imundície e do sedimento ( o sémen?) impuro e não do pó ou da terra. Lilith lançou-se um dia sobre Jeová, quando exigiu ficar por cima, no acto sexual com Adão. Ao descobrir o segredo do nome de Jeová, exigiu-lhe asas que lhe permitiriam abandonar o céu e viver em liberdade, mas com este acto teve de deixar os filhos. Percebe-se a forte coacção psicológica no indivíduo mulher´: o filho é o maior tesouro da mãe.--
Eva no Jardim do Éden. Miniatura turca de c. 1595 d.C.
--Sobre Eva , a igreja cristã primitiva, não tinha qualquer dúvida: ela a primeira mulher, era a culpada do aparecimento do pecado em geral – e do sexo em particular – no mundo.
Sintomático é que em termos históricos, as deusas do amor, são as individualidades mais conhecidas, mais populares e mais invocadas de qualquer Panteão.

Avancemos no tempo. Em 1954, a igreja católica declarou oficialmente que Maria era a “Rainha do Céu”, vários séculos depois de este se ter tornado um dos seus títulos mais usados, pois pelo menos desde o século V d.C. que a virgem era considerada uma co-redentora e uma intercessora da humanidade junto de Deus. Maria só tem jus à hyperdulia que é um direito dos santos. Portanto Deusa nunca mais, concedia-se no entanto a benesse de ela ser Santa.
A Madona Negra de Notre-Dame aux-Neiges,Aurilac, França

Pergunto se a institucionalização da tomada da pílula pela mulher, no processo anticoncepcional, é outra vez o castigo dado pela “divindade masculina”? É que a anticoncepção, julgo eu, poderia ser executada no corpo masculino .

[1] “ A prostituição sagrada era uma forma vulgar e honrosa de culto religioso em muitas civilizações europeias antigas, como as da Grécia, Roma e Próximo Oriente.
HUSAIN, Shahrukh, Divindade Femininas, Colónia, Duncan Baird Pub., 1997

2009-01-28

Divindades Femininas

Venus de Lespugue- Estatueta feminina típica do Paleolítico


O termo “pré-história” generalizou-se cerca de 1865 com a publicação da obra Prehistoric Times do inglês John Lubeck.. Este inglês advogava as ideias de Jacques Boucher de Perthes que já em 1841 associara os artefactos humanos de pedra lascada aos fósseis de animais extintos, pondo em causa a saga Bíblica, quer dizer o ser humano reportava para lá ( antes de) do nascimento bíblico. Compreensivelmente isto originou um vasto programa internacional de explorações e escavações em busca de vestígios.

No seu livro O Asno de Ouro, o filósofo grego Apuleio ( 125 d.C.)dá-nos conta dos inúmeros nomes que a deusa Ísis adquiria quando venerada pelos povos da terra.

Uma colectânea de textos ( na sua maioria) gnósticos , escritos nos séculos II e III d.C. e descobertos no Egipto em 1945, são os escritos de Nag Hammadi que num deles o narrador é uma voz feminina, talvez a de Ísis, ou da gnóstica Sofia ( ou Sabedoria). A voz refere-se a si mesma como “Trovão; Mente Perfeita”, nos seguintes termos:

Pois eu sou a primeira e a última.
Eu sou aquela que veneram e de quem zombam.
Eu sou a prostituta e a santa.
Eu sou a vida e a virgem.
Eu sou a mãe e a filha.
Eu sou os membros da minha mãe.
Eu sou a estéril e muitos são seus filhos.
Eu sou aquela cujo matrimónio é grande e que não tomou marido.
Eu sou a parteira que não dá à luz.
Eu sou a consolação das minhas dores de parto.
Eu sou a noiva e o noivo e foi o meu marido que me procriou.
Eu sou a mãe do meu pai e a irmã do meu marido, e ele é o meu rebento…
Ouçam-me com atenção.
Eu sou a desgraçada e a grandiosa.

Incesto Divino

Isis abraça Osiris, seu marido e irmão

2009-01-18

Àtoa*

Armanda Alves [Calulu Libolo - Kwanza Sul]

Se eu coisa em si, sou, no m(i)m musical esqueço,
o sol ( a clave) em si, em mim, não é,
não sendo, Savanas se revelam no dó musical.

Reino de Kamdimba , dorido, se apresenta mais a sul ,
um pé aqui outro ali fora da caverna ,
as distâncias mantêm , superam , esvoaçam,
os escombros da razão, fora os veres e vezes.

A sinalética é rudimentar agora que o rio transborda,
descobrem se fundos e lodos,
engodos… originarium… a soberania… não te dizia?

Um tambarindo de carácter agridoce, na boca,
marcadamente ácido na alma.





*Àtoa ( à deriva, sem rumo, perdido ex: como é madié, tás àtoa ou quê?)

2009-01-10

BOCA DE CENA


“O que as pessoas comem (ou não comem) sempre foi determinado por uma interacção complexa de forças sociais, económicas e tecnológicas. A antiga República de Roma era alimentada por seus cidadãos agricultores; o Império Romano, por seus escravos. A dieta de um país pode ser mais reveladora que sua arte ou literatura.”
(Eric Schlosser).

O objecto da História da Alimentação tem entradas e saídas múltiplas, pois diz respeito ao tempo e ao espaço, atravessa o cruzamento do biológico e do cultural, do social e do económico, do político e do religioso, das ciências e das técnicas, das atitudes e comportamentos, das normas e representações. Nesse sentido, a questão da alimentação situa-se no coração de nossas preocupações e em qualquer reflexão sobre a evolução da sociedade.

A formação do gosto alimentar e o nosso comportamento referente à comida vão além do biológico e do nutricional. O alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social. Os alimentos não são somente alimentos.

Alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois constitui atitudes ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações. Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. A historicidade da sensibilidade gastronómica explica e é explicada pelas manifestações culturais e sociais, como espelho de uma época e que marcaram uma época. Nesse sentido, o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come. Enfim, este é o lugar da alimentação na História.

Do exposto, a História da Alimentação se insere nas formas de organização material e simbólica e nas manifestações do poder nas sociedades. No âmbito de tais manifestações, as relações cultura e poder exaltam a compreensão de que as diversas formas de representação social podem ser entendidas como actuantes num processo de modelagens de comportamento, hábitos e atitudes que se remete a estas manifestações de domínio, de poder. Nesse sentido, o conceito de poder é amplo, não se tratando exclusivamente do poder pela força ou de dominação de ponto de vista material. Tal compreensão implica em considerar o entendimento do poder como um universo de relações que abarcam um conjunto de recursos simbólicos, imaginários, comportamentais, enfim, de domínio cultural.
Desta forma, o alimento é passível de influenciar a construção da identidade e a natureza daquele que o ingere, pois uma dimensão do gosto é influenciada pelo imaginário.
O ser humano é aquilo que come, portanto o ser humano é aquilo que é! Somos o que comemos ou comemos o que somos? Tais concepções e questões nos remetem às vinculações cada vez mais acentuadas entre a alimentação e os seus diversos cruzamentos bem como às diversas formas de sociabilidade activas. Desta maneira, a nossa relação com a comida implica que, de acordo com FISCHLER, “Incorporar um alimento é, tanto no plano real como no imaginário, incorporar tudo ou parte de suas propriedades: chegamos a ser o que comemos, sendo que a incorporação funda a identidade”.
Em outros termos, o consumo alimentar não está somente ligado ao mercado e aos mecanismos económicos globais de tal sociedade, aos preços, custos e rendas, mas sim em grande parte condicionado pelos fenómenos de ordem cultural: o alimento que se prefere, aquele que se tolera aquele que se exclui e aquele de que não se gosta.

Neste ensaio pretende-se e aplicando uma metodologia qualitativa, uma definição das várias dimensões existentes no contexto Restaurante/ Consumo/ Cliente a saber: ocasião, atmosfera comida e elemento marcante.
Este contexto de consumo em restaurante revela-nos uma construção simbólica de avaliação, que pode mesmo ultrapassar a importância dada ao alimento.
Antes de ser inventada a Sociologia como meio de pensar a sociedade, toda a gente aceitava mais ou menos a sociedade tal como era.

OSBORNE, Richard, LOON, Borin van, Sociologia para principiantes, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.

O Restaurante Boca de Cena está situado no Largo de São João em frente ao Teatro Micaelense inserido na parte histórica da cidade de Ponta Delgada.
Tem capacidade para quarenta pessoas e está decorado com as cores negra no chão e tecto, bege nas paredes e do tecto caem franjas de fios pretos ao longo e por cima das paredes do restaurante. As mesas são pretas com toalhas bege e faz-se o uso de velas acesas sobre a mesa. O custo médio por refeição é de 16 euros e o ambiente musical é marcado pelo jazz e lounge como estilos.
Tem uma ementa que sai fora do tradicional, ou pelo menos do mais comum servido em espaços similares dentro da cidade de Ponta Delgada. O Chefe da cozinha, é também o proprietário do espaço, idealizou um misto de cozinha mediterrânica em combinação com outros componentes exóticos, o que origina a disponibilização de uma refeição “ diferente”.
Para além de ser um local provedor de alimentação, constitui-se em um espaço social onde os actores interagem, e que embora condicionados pelo normativo ( ritual estereotipado do comportamento em espaço de consumo de comida) vulgo as etiquetas, formalidades de como servir, os homens na sua maioria como os provadores dos vinhos,
etc., revelam alguns “desvios” comportamentais.
Assim há a considerar três campos: a cozinha com um chefe e um ajudante, a sala de refeições com um funcionário e o campo exterior ( a Cidade) constituído pelos potenciais clientes.
Circunscrevemos a análise ao período da noite (jantar) e que vai das 19 horas às 24 horas e consideramos todos os dias da semana excepção feita ao Domingo por se encontrar fechado.
Sob a ideia de uma construção social da realidade e para além do interacionismo simbólico, os indivíduos não sofrem passivamente a realidade social; eles descrevem e interpretam sem descontinuidades as suas experiências[1], a fim de darem um sentido às suas acções e dos outros. Fazendo assim e segundo A. Schütz, reconstituem constantemente a realidade que não existe senão através dessa incessante actividade.
Tanto a cozinha como a sala assumem parâmetros a respeitar., transformados em regras por qual se orientam em nome do bom e regular funcionamento do serviço. A comunicação entre a cozinha e o cliente é intermediada pela sala de refeições e por via electrónica e na pessoa do empregado de mesa que neste caso é também a pessoa que realiza a análise sendo portanto observador/participante.
Para Freud, a criança ao adquirir um sentido do eu obtém ideias sociais sobre género e comportamento.



George Herbert Mead (1863-1931), o homem responsável pela abordagem interaccionista simbólica, salientou que o ser humano é a única espécie que pode usar linguagem e, por isso, planear, pensar e comunicar experiências.

AS DIMENSÕES

Pretende-se entender o comportamento do consumidor em restaurante, não apenas sob os conceitos da estratégia de marketing, mas sim a partir de uma contextualização sociocultural, ou seja identificar não o factor que leva à compra do serviço, mas sim identificar a partir da experiência, os factores que podem ter contribuído, para a construção de uma experiência gratificante.
O método qualitativo de pesquisa suscita debate e dúvidas no que se refere à possível dicotomia entre a pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa. A combinação de diferentes métodos é reconhecida como elemento contributivo para a compreensão das variáveis.
Neste estudo não somos tão ambiciosos, por isso, e centrando-nos na comensalidade, tomando como ideia o prazer ou não que o individuo desfruta na tomada da refeição. Elegemos assim as dimensões ocasião, a atmosfera, o alimento consumido e o ritual do vinho, relacionando-as com as emoções envolvidas.

1- A ocasião
O que leva os indivíduos a um restaurante? Qual era a ocasião? A variável ocasião permitiu a identificação do evento assim como dos grupos. Aniversários, festa de família, encontro romântico, razões de trabalho, gosto pelo exótico etc.
O acto de comer não se restringe à questão do alimentar em si, mas representa importantes funções simbólicas e sociais. Assim , o motivo que levou ( trabalho, lazer) que levou o indivíduo a escolher um determinado estabelecimento é um elemento significativo na definição do local.

2- A atmosfera
A variável atmosfera deriva tanto do lugar em si quanto do tipo de comportamento que se tende a desenvolver em determinados ambientes. A atmosfera criada pelo restaurante afecta o modo como cliente reage quer na escolha quer no sentir-se bem no decorrer da refeição. Poderá ser um processo consciente ou subconsciente causador do impacto sensorial no cliente: Consciente (é barulhento? as mesas estão muito próximas umas das outras?) e de modo subconsciente ( clima, iluminação, móveis, música ambiente).

3- O alimento consumido

A variável comida reporta tanto ao tipo de culinária ( local, regional, internacional) quanto ao nível de sofisticação, simplicidade ou requinte das preparações, podendo expressar, ainda, questões referentes aos sentimentos, tais como: comida caseira, exótica etc.
Nenhum fez menção ao custo da refeição, mas fizeram questão de mencionar detalhes que tornavam a composição da ementa sofisticada. Parece ser mais importante a exibição do capital cultural do que do económico para demonstração de bom gosto.

4- O elemento marcante
Em relação ao questionamento do que marcou mais, percebe-se que há uma diversidade de factores mencionados e curiosamente notou-se que existia pouca ênfase no alimento e em seu sabor. Factores como gentileza do empregado, a companhia, o ambiente parecem ter mais importância. que o alimento em si.

5- O ritual do vinho
O vinho é a bebida eleita para comemorações. O servir o vinho comporta alguns gestos e ideias ritualizadas em procedimentos: se tinto ou branco, quem escolhe, quem prova etc. Sabemos que por norma é quase sempre o homem que escolhe e prova o vinho.
Nesta análise introduz-se um factor de indução a saber: o empregado pode contrariar o processo entregando a carta de vinhos às senhoras, perguntando aos dois quem faz a prova etc. Invariavelmente e seguindo os “cânones” ( entrega da carta de vinhos ao homem, interpelação directa de prova ) o protagonismo é sempre do homem. Mas se o empregado entregar a carta de vinhos à mulher e interpelá-la directamente, constatamos o assumir de novas posições, nomeadamente a escolha e prova do vinho, pela parte feminina.
Nos quadro 2 e 3 mostram-se os resultados, num com indução de comportamento noutro sem a influência do empregado.




Em a teoria da Acção Comunicativa ( 1981) Habermas adianta uma análise complexa da sociedade capitalista e os meios possíveis com se pode resistir aos efeitos da razão instrumental ( a racionalidade de Weber) através da emancipação moral e comunicativa


OS QUADROS
Foi solicitado aos clientes resposta às seguintes questões:
a) Qual era a ocasião ( aniversário, negócios, namoro etc.)?
b) Opinião sobre a atmosfera do local.
c) O que achavam da comida?
d) Qual tinha sido o elemento marcante do jantar?




Está considerado nesta síntese ( o quadro abaixo) um universo de 100 indivíduos.


A razão pela qual as pessoas tendem a comportar-se de uma maneira particular, digamos em reuniões , jantares ou noutros acontecimentos sociais, é que esse tipo de comportamento é determinado pela cultura em que as pessoas vivem.



CONCLUSÃO
As ciências sociais solicitam tanto os recursos da metodologia científica como os da subjectividade controlada pelo investigador, o que representa ao mesmo tempo uma dificuldade e uma vantagem[2].
A distinção entre lógica intencional e lógica objectiva apresenta o interesse de mostrar que as consequências dos comportamentos não podem necessariamente ser esclarecidos pelas intenções dos indivíduos que os adoptam. Os autores Remy, Voyé e Servais[3] definem a lógica intencional como “ tudo o que contribui para organizar o sentido vivido sobre o qual o actor se mobiliza e a partir do qual certas práticas são possíveis”e a lógica objectiva como “ os efeitos que decorrem de uma prática, independentemente da consciência que se tem disso”.
O interacionismo simbólico concede muito peso à lógica intencional, posto que insiste sobre as significações que os indivíduos dão às suas condutas. Mas estas significações elaboram-se em interacções que produzem elas próprias efeitos objectivos[4], como mostram os quadros aqui mostrados.
O interacionismo concentra a atenção sobre o jogo complexo, constituído por desígnios morais, rotulagens, controlos sociais e acções colectivas, cujas interacções concretas constituem, de algum modo, os átomos de base e do qual faz parte, “ de perto ou de longe”, um conjunto de protagonistas.
As relações afectivas e as representações sociais associadas ao acto de comer fazem parte daquele quadro e constituem-se em elementos explicativos das escolhas inconscientes por associação, do consumidor em restaurantes.

BIBLIOGRAFIA
CAMPENHOUT, Luc van, Introdução à Análise dos Fenómenos Sociais, Lisboa, Gradiva, Trad. Eduardo de Freitas, 2001.
HABERMASS, Jurgen, The theory of communicative action, Cambridge, Polyty Press,1995
OSBORNE, Richard, LOON, Borin van, Sociologia para principiantes, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.
REMY, J., VOYÉ, SERVAIS, E., Produire ou reproduire? Une sociologie de la vie quotidienne,t.1, Bruxelas, Editions Vie Ouvriére, 1978.
SCHÜTZ, Alfred, Le Chercher et le Quotidien, Paris, Mérediens Klincksieck, 1987.
WEBER, Max, Ensaios de sociologia, Rio de Janeiro, Zahar Editôres, 13ª.Edi., 1974.


[1] SCHÜTZ, Alfred, Le Chercher et le Quotidien, Paris, Mérediens Klincksieck, 1987.
[2] CAMPENHOUT, Luc van, Introdução à Análise dos Fenómenos Sociais, Lisboa, Gradiva, Trad. Eduardo de Freitas, 2001, p., 39.
[3] REMY, J., VOYÉ, SERVAIS, E., Produire ou reproduire? Une sociologie de la vie quotidienne,t.1, Bruxelas, Editions Vie Ouvriére, 1978, p., 93.
[4] CAMPENHOUT, Ob. cit. p., 69.

2008-12-18

A Névoa



O que sonho num tempo
num dos mil museus
era
perante a névoa
que a pintura
ante uma crucificação
uma emoção
crua e nua
traz a linguagem
corpo a corpo
imediata
em carne viva
a expressão
porque viva mais activa
para ela
a névoa era
compunção fingida
narrando o acontecimento
sem perceber sequer
que a pintura
era a moldura de névoa.

2008-12-02

Léxico Colorido

Il y a seres que escrevem,
Kilómetros de palavras,
sempre na
preta cor,
um
luto lexical.
Os um pouco mais atrevidos,
num voar de desafio,

fazem no em vermelho.
Aquela frase, em rosa escrita,
amaciaria acidezes.
Ou um outro poema azulado
do tamanho de um céu.
O meu escrever-te,
numa realização de cada instante,
é um
arco íris,
por oposição aos que escrevem em branco
sobre folha branca.
Germine se a verde semente
na boca da
serpente nativa.
Em “Braile” a solução para afagar.
Para as palavras desafortunadas,
use se,
uma cor transparente,
disfarçaremos equívocos.
Da palavra colorida
sou apaixonado,
nela o sol ( luz)
brilha sempre.


2008-11-23

Os Museus Imaginários


Bernini, O extâse de Santa Teresa ( pormenor), Roma Santa Maria della Vitória

1-Nascida de um interesse pedagógico a Reforma Pombalina em 1772, enfatizava e preconizava que “ nenhuma cousa pode contribuir mais para o adiantamento da História Natural, do que a vista contínua dos objectos. Acrescento eu, que a continuidade cria um laço “ afectivo” de e para o objecto. Era portanto ponto assente àquela data, que ver os objectos facultava uma consciência e conhecimento mais exacto do que qualquer descrição do objecto ,o que é natural e comprovadamente óbvio.
Manifestava na altura o recém criado Gabinete de História Natural que “ colecções fechadas nos seus gabinetes não produzem utilidade alguma de instrução pública” . Constatou-se à posteriori que a premissa dialéctica ficou-se por isso mesmo. Quando muito, mais alguns, poucos , continuaram a ter acesso a ver os “objectos”.
Existia uma nostalgia do tempo passado, como que um sentimento de culpa em relação ao destruído lá atrás. O culto à saudade, aos acervos valiosos e gloriosos era o fundamental.
Há uma tendência ( pouco democrática) onde prevalece a ideia de autoridade, onde importa é celebrar o poder ou o predomínio de um grupo social.(1)
Ressalta assim deste período o seguinte: são as Sociedades Eruditas ( Academia das Ciências de Lisboa, Sociedade de Geografia) mentoras e executoras do plano, portanto uma cúpula elitista que realiza o por elas próprias proposto. Decorrem as viagens em expedições ( imagina-se quem compunha estes grupos) debaixo de dois princípios: o científico e o estético. Sabemos como o científico foi suplantado pelo lado economicista: a Coroa Portuguesa mostrava interesse no desenvolvimento e na diversidade da Agricultura Colonial com intuitos puramente mercantis e a própria Academia das Ciências de Lisboa ( 1781) entre outras ideias faz saber “ que este tipo de colecção poderá desempenhar, sendo bem ordenada, no adiantamento das artes, comércio, manufacturas e todos os mais ramos da economia”.
No primeiro período da Museologia Portuguesa existiam na verdade variados “ Museus” que evocavam e mostravam vestígios ( memórias) do passado, , as condições de existência na Terra, das plantas e dos animais, mas o espírito científico foi reduzido e mal conduzido, mais parecendo a realização do objectivo de alguns, viajar para lugares exóticos. Atestando o atrás dito, a falta de rigor científico, a falta de informação precisa quanto à proveniência do espólio acumulado.
Os Jardins Botânicos e os Gabinetes de História Natural exprimiam ao nível das instituições , o modo de configurar o “real”, que permitia situar os seres humanos num sistema de identidades, transportado para a Sociedade que ajudava e reforçava o pensamento da diferenciação das classes, da hierarquização onde uns têm mais que outros.

2-No suposto surgimento dos Museus Públicos 1833-1910 a ideia do bem e do legado comum vai se tentar consciencializar pondo a nu, o carácter elitista e nada público. A grande massa de pessoas que se encontram afastadas dos espaços museológicos é enorme.
Reforçava-se a perspectiva ideológica, preconizando, a passagem do Privado para o Público.
Publicar é o acto de tornar conhecido de TODOS um determinado facto.
Sabemos que a língua comum transporta, à revelia da maioria daqueles que a usam, tradições de pensamento que condiciona a sua visão e concepção do mundo, a sua percepção da realidade(2)Daí que uma mesma palavra possa ter vários significados, refiro-me claro à não concretização da perspectiva ideológica, pois ainda hoje são “abertos” e não públicos.
O crescimento de Museus em Portugal não foi acompanhado de um incremento da correspondente Programação Museológica, detectando-se um conjunto de problemas, tais como a fraca atenção à investigação e ausência de áreas de trabalho técnico.
As sociedades científicas de carácter local constituídas seguiam como modelo a Associação dos Arqueólogos Portugueses curiosamente reconhecida como instituição pública em 1918.
O advento das duas guerras mundiais não deixou muito espaço e tempo para as preocupações museológicas, o que se compreende.
Após as duas guerras mundiais o Museu, continua, quanto à forma, denominaremos um museu Thanatos, porque, em termos programáticos limita-se a evocar, pontualmente, a vida comunitária, não suscitando os diálogos indispensáveis com o público e com a comunidade.(3)Saliente-se no entanto que a partir de 1930/40 a etnografia e a história regional assumem-se como componentes disciplinares mas a ideia política do Estado Novo de querer fazer parecer um Estado de unidade e coesão segrega qualquer outro ideal.
Década e meia depois, da segunda guerra mundial, Portugal vai começar a ter que lidar com o espírito nacionalista que irrompe ( em termos militares) nas suas colónias.
Os conceitos o “mais evoluído” o “mais civilizado” condicionam qualquer tipo de análise no sentido de se chegar à verdadeira plataforma no qual o ser humano reflecte o desejo de guardar a Informação. São os processos autoritários da imposição de novos valores.
O museu decorre de uma sucessão de felizes acasos.(4) Uma teoria, um método, uma proposta, devem ser avaliadas não em si mesmas, mas nas consequências que produzirem historicamente.
Refira-se por curiosidade que em 1967 começava-se a discutir o relacionamento do museu com a escola. Vê-se por aqui o quão longe ainda se estava do sempre referenciado “ ao público”.
Os museus portugueses foram e como linha geral, objectos de utilização política e ideológica, durante o século XX.
De tão maravilhados que ficamos com a tecnologia, a nossa atenção dispersa-se.
Os objectos não são apenas mostrados, mas também explicados e interpretados.
Ao silêncio dos objectos, juntou-se o som ambiental, a música de fundo. A rotação da peça, a variação da luz: o guia electrónico que nos fala quando nos aproximamos de um objecto. Há múltiplos processos de criação de diálogos interactivos entre a imagem e o som, entre o conceptor / museólogo e o visitante.(5) Repara-se que a funcionalidade da tecnologia faz maravilhas mas não traz grandes resultados sobre o cerne da questão: que será o da interiorização da ideia/objecto como fonte didáctica, do Saber-Saber. As transformações da produção industrial geram acumulativos consideráveis de objectos, logo à partida, em risco de desaparecerem motivados, pelo próprio ritmo da inovação tecnológica.
“Até onde o mecanicismo nos tem levado? Acho que ao isolamento e a um pouquíssimo ganho social. Destruições irreversíveis da Biosfera. Acumulação de lixos e detritos, de resíduos poluentes de mercadorias, redução dos seres humanos ao estatuto de mercadorias, perda dos valores essenciais.”(6)Acrescente-se aqui a também o acumular de graves desajustamentos de muitas soluções arquitectónicas.
Como complemento ao atrás exposto e para demonstração da alienação em relação ao conceito que se faz ainda hoje em dia citarei um estudo realizado em Ribeira Chã na Ilha de São Miguel e sobre o Denominado Museu Comunitário, e perante um inquérito realizado aos seus habitantes, apurou-se que o factor de maior importância, quanto à existência do Museu era a popularidade que ele trazia para a freguesia. Consegue-se aqui descortinar alguma intenção de preservação de uma memória colectiva rumo à apropriação do apreendido? Ou resume-se tudo outra vez a interesses mercantis?
A falta de um fio condutor origina assim formas interpretativas diferentes
O Etnólogo Marc Auge na sua obra Les Formes de l’oubli, remete-nos para a “necessidade do esquecimento”; segundo ele, o esquecimento é necessário à sociedade e ao indivíduo, a própria memória tem necessidade do esquecimento.

3- O Museu Edificação está ultrapassado.
A ideia central será a de expor as “Ideias” e não os objectos, por isso a Arquitectura deve-se adaptar ao programa (ideia) Museológica, mesmo que implique o desaparecimento do projecto de arquitectura.
A existência de laços de afecto com os monumentos, as personagens, os espaços, ajudam à sobrevivência do Património Cultural o que levará à participação comunitária, evitando as dificuldades de comunicação características do monólogo museográfico, empreendido pelos especialistas. A imagem museal no espaço social e no tempo social assim como no espaço fisico ajudará a que o objecto passe a ser entendido como produtor de conhecimento.
Os objectos têm várias histórias, vários contextos e que poder realmente temos nós para os “congelar” num? A transformação, o perecível, acompanham o ser humano desde sempre. A cristalização de um objecto num contexto, a tentativa desesperada da preservação do objecto no imobilismo não se coaduna lá muito bem com o nosso apregoado espírito de liberdade e de modernidade.
Estamos de acordo com a ideia de que as relações do ser humano com a natureza devem procurar uma dimensão diacrónica e sincrónica. Os objectos tornam-se mais apelativos e compreensíveis se inseridos no espaço onde se encontraram ou pertencem, ou dito por outras palavras, que estejam já ali à nossa disposição “agora e já”.

“A subespécie a que pertencem investigadores e epistemólogos não representa, só por esse facto, qualquer ponto de chegada evolutivo; e antigas expressões antropocêntricas tais como “ hominização”, “ cerebralização”, “limiar de consciência”, espiral evolutiva”, “caminhada para o homem”, devem ser definitivamente banidas do vocabulário paleoantropológico.”(7)
António Bracinha Vieira(8), afirmando o atrás exposto, coloca-nos perante uma das condicionantes, que nos leva quase sempre, a uma visão redutora do que realmente se passa à nossa volta. Se considerarmos o Meio Ambiente e todas as Espécies que nos acompanham como companheiros desta vida e não como subordinados ou abaixo da nossa “douta inteligência”, descobriremos novas plataformas para solução do que se aproxima.
Pois é disso mesmo que se trata: INOVAR!

Os museus são referências fascinantes para a compreensão da trajectória humana. Mais visível no campo das artes, o seu papel tem igual relevância na difusão de todas as ciências. E o passado não constitui seu único campo de trabalho, apesar da conotação mais corrente do termo que os denomina. Embora com declarada função preservacionista, os museus também reflectem seu tempo, contendo elementos de grande valia para que imaginemos o futuro.
Os museus, segundo o International Council Museums (Icom), são basicamente espaços voltados para o estudo, a educação e o entretenimento. A Associação Americana de Museus fixa espectro mais abrangente, contemplando na categoria até mesmo jardins botânicos e zoológicos, planetários, sociedades, casas e propriedades históricas. Mas, como sabemos, as definições sofrem o crivo da época em que foram elaboradas, nem sempre traduzindo o futuro sentido da coisa definida. Segundo o Dicionário Crítico de Política Cultural (Teixeira Coelho, Ed. Iluminuras, 1997), no Egipto, sob Ptolomeu I (século III a.C.), a palavra museu designava um local de debate e ensino de todo o saber definição idêntica à do papel hoje exercido pelas universidades.

Tudo tem uma forma e conteúdo. Falar portanto do Didáctico, da Formação, da Instrução, com a preocupação única de mostrar só a forma dos objectos e ideias, só nos afasta da verdade.
Por outras palavras se o que me move na preservação e transmissão da memória colectiva se esgota no ensejo que terei para a criação de postos de trabalho, ou na “rentabilização”, traímos assim o próprio espírito da Memória Colectiva.
Os museus “fazem o seu trabalho público”, mas o seu desenvolvimento situa-se num “sector profissional”, constitui portanto uma “elite cultural”.
As artes que o museu ressuscitou assemelham-se, mas, o seu domínio é mais vasto; as artes que o museu matou assemelham-se, mas, o seu domínio é mais complexo do que o de cada um deles.
As linguagens da arte não são semelhantes à palavra, mas irmãs secretas da música ( por razões diferentes das pressentidas quando a pintura rejeitou a imitação.)
O visitante do futuro não poderá evitar outra curiosa descoberta. Aqueles que visitam uma exposição de arte de vanguarda, que compram uma escultura “ incompreensível” ou que participam num happening estão vestidos e maquilhados segundo cânones da moda, trazem jeans ou fatos de marca, penteiam-se e pintam-se segundo o modelo de Beleza proposto pelas revistas impressas em papel couché, pelo cinema pela televisão, isto é pelos mass media. Seguem os ideias de Beleza propostos pelo mundo do consumo comercial, aquele mesmo contra qual se bateu durante anos a arte das vanguardas.
Como interpretar esta contradição? Sem procurar explicá-la, ela é a contradição típica dos nossos tempos.
Com um salto de quase três séculos, chega-se à máquina da Colónia Penal de Franz Kafka, onde engrenagem e instrumento de tortura se identificam, e o conjunto se torna de tal modo fascinante que o próprio carrasco chega a imolar-se para glória da sua criatura.
A questão da sustentabilidade económico-social dos museus, transversal às distintas correntes museológicas, é um aspecto que preocupa e é na verdade preocupante, porque já somos hoje confrontados com o aumento exponencial dos objectos que o ser humano fabrica. Até quando teremos a capacidade de resolver o problema da acumulação?
Há questões bastante específicas voltadas para os desafios enfrentados pelos museus, Museu de Arte Contemporânea, Museu de Arqueologia e Etnologia e Museu de Zoologia. A lógica institucional de cada um precisa ser constantemente repensada, incluindo o aprimoramento das estruturas decisórias pela existência de conselhos deliberativos, fixação de novos regimentos e objectivos estratégicos. Terá que se ter em conta, nessa tarefa, não somente as mudanças tecnológicas já referidas, que afectam os museus em geral, mas também a evolução das mentalidades para favorecer uma plena inserção dos museus universitários em actividades de pesquisa, ensino e extensão.

4- Partindo do pressuposto que o ideal, a ideia adjacente, do espaço museológico será a intenção da formação, educação, memória de todos, aberto, uma solução abrangente apresenta-se, ( aberto e exposto no quotidiano uma do cidadão comum, combaterá os gastos financeiros, exorbitantes da maioria dos projectos) como solução mais equilibrada e não tão dispendiosa.
Teremos que interiorizar definitiva e consistentemente a ideia do Perecível como inultrapassável. É irrevogável: existe um princípio um durante e um fim. Convém não esquecer que a essência do movimento da ideia Museológica é a PRESERVAÇÂO DO CONHECIMENTO e não dos objectos.
Portanto sem portas sem paredes e de acessibilidade total podendo ver e tocar-se tudo o que nos rodeia.
Aproximação dos espaços temporais numa forma de actualização permanente do conhecimento numa inserção plena e interactiva dos seres humanos.
A feitura de cópias dos elementos que se pretendem preservar, abre um campo mais aliciante para o potencial “cliente” da aprendizagem na medida em que ele pode tocar o objecto e o próprio objecto pode ganhar uma verdadeira dimensão didáctica na medida que poderão ser feitos cortes transversais ou de exposição do interior das obras.
O Património Cultural dentro dos seres humanos como forma de abolir as condicionantes psíquicas e sociais, que são no fundo as verdadeiras “paredes, muros, portas” a vencer.

[1]CHAGAS, Mário, Cadernos de Sociomuseologia nº. 13-Há uma gota de sangue em cada Museu: A Óptica Museológica de Mário Andrade, Lisboa, ULHT, 1994.
[2] AUGÉ, Marc e COLLEYN, Jean Paul, A Antropologia, Lisboa, Edições 70, 2005, p.,89.
[3]Idem, p.41.
[4] MALRAUX, André, O Museu Imaginário, Lisboa, Edições 70, 2000, p.,13.
[5] NEVES, João Alves, Encontros Culturais Luso-Brasileiros em Curitiba e Rio de Janeiro, Lisboa, Universitária Lda, 1ª edi.,2004
[6] Arquivos da Memória Nº.2, Lisboa, Colibri, 1997, p.p.,69-70
[7] VIEIRA, António Bracinha, Ensaios sobre a evolução do homem e da linguagem, Lisboa,Fim de Século Edições, 1995, p.12.
[8] Formado em Medicina, Doutourou-se em Psiquiatria. É professor catedrático desde 1992.Rege cadeiras de Antropologia Biológica e participa no ensino pós-graduado.

2008-11-04

dimorfismo

ali a morte, imóvel, como um predador. os gémeos monozigóticos jogam às cartas com o baralho da memória colectiva. os maus espíritos introduzem nos, conversas com zumbidos, fazendo cemitérios vibrarem. espera aí não te vás, eu amo tuas imperfeições, não tenho exigências, liberto, só, a pena intermitente raiva, somente…
a flor como esquecimento da própria semente, foi tema que me preocupou largamente, assim como o dimorfismo sexual, só que muitas chuvas passadas me molharam uma folha de esquecimento. á procura ( não digas nada agora…peço te) da ilha que fosse berço, passei noites e esperas, pé ante pé, como quem procura a falha, encontrei sim o pássaro que não era livre, mas não morto, pois que a morte é de toda a maneira livre. estarei apaixonado do profundo instinto, enquanto se derretem á minha volta os desejos, numa magia do tempo, um sol diferente, sei lá um beijo comungante em nós caídos na tarde, rebolamos nossas vestes, nossos corpos bruxuleiam chamas, exaustos de amor.. são estes mesmos pensamentos… estes, sempre os mesmos…os nossos ocultos, os amâgos entreabertos como que expectantes de uma saliva sequiosa, duma tesão para lá do limite corporal, tua garra ferrada no meu coração, inunda-o de calor.
de propósito esqueço me aonde vivo. no país do sol masturbando se à mesma hora, no mesmo ângulo e parâmetro, tapando se com um diáfono véu, encobre sua timidez, com vontade de nascer sempre à mesma hora, será lá minha morada.

2008-10-13

Carta a Ximbueko

Ambwi,13-10-08


ardo em esperas desiquilibrantes, tendo te, luz como farol vejo me num todo anterior.
simulo um fazer amor com o ar que me rodeia e em mim é.julgo ser este o mesmo que envolve o teu respirar. identidades fragmentárias visitam me numa constância. desta viscosidade entrançada, nasce no meu peito, um grito do qual não tenho o som. o lugar é tão recente, o palácio está em ruínas, as sombras estão tristes. por vezes sou a chuva miúda e vazia chegando tarde à planta murcha. faltam me as palavras belas para te dizer, dói me demasiado a existência para o fazer. as mulheres dos campos, os seres fundamentais, parem suas crias em descrença e encontros sinistros. não tenho como fugir de ser uma delas. sou uma assombrada roseira fria espalhada no ventre. desígnio de dois sangues da mesma família. tingiria como teu amor as minhas palavras, se pudesse sentir te aqui. adormeceria num sono de paz, pertencendo te.




Viye

2008-10-10

Carta A Viye






Ponta Delgada, 10-10-08



queria ter a apropriedade de envolver o teu corpo, com as palavras, assim como o faz tua pele. quando escrevo ,a palavra é uma nuvem fazendo de pilar esvoaçante na cisterna da fresca água onde mergulhas os braços naquelas posições amorosas. sózinho posso enfrentar os deuses que passam, o sorriso de uma dança enleia me numa melodia que aprendi de ti. ser forte é uma fraqueza que se exercita incansavelmente. o cavalo na montanha confirmará esta força. o gradeamento morno dos teus braços está em mim, pois a carne é também àgua, terra, fogo, mesmo que os dias não se sucedam. hoje mesmo vi o pássaro agonizante em asfalto preto, seus olhos olharam me, fui eu que os fechei na sua morte, enfraqueci me. busco na tua lembrança a força da ultrapassagem. as minhas unidades de base, da compreensão ao silêncio, desvanecem se na vitalidade detergente. deste modo construo em ti, uma obra de arte na tela da ausência de tempo. projecto a voz neste céu aberto, sob o sopro do fogo, alcançar te ei em incêndio, inardível me receberás.



Ximbueko

2008-09-10

Sal em pedra de sal


Como uma pedra em sal, colocada na ferida em carne viva, soou me o teu NÃO. A razão da ferida, era de um sumo existencial que ambos, algures, beberamos; do não , por ser o contrário de SIM.
Nos socalcos dos nossos compartimentos, em condomínio fechado, guardas gorilas vigiam nos , protejem nos… fazem nos crer na pontiaguda ponta do chicote.
Sei desta alegria momentânea, efémera, desmultiplicadora da dor/sabor, mas mergulho me de olhos fechados e cheio de inaudível(idade). Ficou sómente teu cheiro.
Alcanço então o prolongamento do meu desejo no cheiro retido.
É certo, choravas o NÃO.
Dizias me que partirias em busca dos teus desejos de espaço, muscularias em ginásio, as asas, que levaste do fundo do (meu) baú ; ansiosamente teus olhos grudaram se no horizonte como se buscasses um paraíso ainda não prometido.
Lacino me em pensamento, tento acompanhar teu sofrimento de despedida, lembrando te que ainda não te vira chegar.

O meu baú é um bazar: inúmeras asas , desprendimentos, semi preciosidades se encontram por lá.
O baú não é meu, a chave dele é liquefeita, apresenta-se em todos
Os Volúveis, infiltra se nos em inúmeros poros, várias aberturas são, nenhumas as saídas.
Mas o sal também tempera, o aço em laço… a vida de desembaraço...
o en(s)osso.
Concordamos por fim, fazer um tempero agri-doce das nossas vidas, uma pitada do teu doce um pouco do meu sal, separou nos de sorrisos nos lábios.
Partimos contentes e confiantes.




2008-09-03

OBSCURO e FUNDAMENTAL

Editar e publicar um livro é uma forma que tenho para DAR.
A massificação de que Gasset falava tá aí também nas artes.
Qualquer um se julga artista, os parâmetros nivelaram-se por baixo.
Para além de professar que o acto criativo não deve ser pago, tenho que o demonstrar no sentido prático.
Assim Obscuro e Fundamental é para ser oferecido e todos os direitos são irreservados, podendo o livro ser reproduzido ou transmitido por qualquer processo, sem autorização.
O meu " pagamento " advém do gozo que me proporcionou a feitura de OBSCURO e FUNDAMENTAL.
Esta é a forma de exercer alguma da liberdade que me resta neste mundo de imposições.

2008-08-28

O SOM


A ciência óptica , esmoreceu,
escurecendo a visão de nós.
A palavra não nos serve.

Existe na verdade
a interação inibitória
é antiga e absurda,
mas quando nos temos em abraços,
descomplicamos.

Até a cosmologia arcaica
fica inocente, perante
as maquinações dos especialistas.

Disse-lhe… depois de sair dela:
- Não usaremos mais as palavras…

Comunicar, só com O Som.
O som do amor!
O som futurista!
O som da vida!
Seremos a pauta musical
recheada de claves de sol
musicando nossos encontros.

2008-08-03

A ROLETA



Olhei o dentro da esquálida lagoa.
A olho nu ou microscópico
ecoavam minhas vastas áreas
sempre , um chorinho imberbe adulto.
Olhos secos , nada jorrava ,
nem gotejavam.
Tinha existido um virginalectico e único lacrimijado…
…. Em tempos idos…
….caídos….
No plasma electrocefalóide
octogonal prismática simbiose,
é mãe… mas dilui-se esverdeando casos e casulos,
esperança…
no pranto das flores debruçadas nos parapeitos do seu arrastar
busca, receosa praguejando a rectilínia mansão,
afinal uma simples bolha nebelinosa.
No consenso dos anciães, reunidos por hora,
nos minguantes quartos da Lua
decidido fora o extermínio de todos os Deuses
restariam…
os anjinhos para preservação da espécie, mas só os gerados
em gélidas incubadoras:
Sabe-se que o Sol se extinguirá.
Neste enigmático ecrã, NÓS ( os Eus) , defronte, elaboramos planos
sobre que direcções, que desvios usaremos!
No término da perspectiva mais longínqua e imaginável está uma roleta
Umas vezes da sorte ,outras do azar.

2008-07-18

COITOS DO IMAGINÁRIO


O KImdaMagna publicou o livro do qual se mostra a capa.
O livro não tem preço. Este livro é para ser oferecido para leitura.
O estilo é o dele. Foi todo idealizado e feito pelo KimdaMagna. Todos os direitos do livro são irreservados e poderá ser copiado sem autorização prévia do autor. Ao KimdaMagna basta-lhe saber que foi ele o criador da obra.
Não há regras , nem as ditadas por um qualquer editor , nem as imposições linguísticas, nem o "como deve ser feito" estéticos ou de convenção.
Resumindo pode-se dizer que este livro é o "voo livre do KimdaMagna".
Professo e idealizo que qualquer manifestação criativa nunca deveria ser paga.

2008-07-01

Um dia no Metropolitano


Naquele dia resolvêramos fazer a metamorfose ideal. A ideia fora de MariaAna que sofria do sindroma dos afagamentos.
Eu ao centro, rectilínio como deve ser um chefe, MariaAna à minha esquerda, AnaMaria à direita, gémeas, minhas irmãs, curvilínias vestidas, como deve ser a feminina condição. À partida, o plano era primoroso; olharíamos de cima para baixo a nossa espécie, dar-nos-ia vantagens; situados perto dum céu cinzento esbranquiçado, um pouco afastados das terrenas carnes, disfarçados nas formas suspensas e de sustentação. Aliás como nos mostra a foto.

MariaAna justificava ( para proveito próprio) o plano, afirmando que a excelsa comunicação dos humanos está nas e com as mãos Em termos práticos seria agarrada, afagada por inúmeras mãos ao longo das “viagens”. AnaMaria tinha horror ao contacto masculino mas aceitou o desafio por ser gémea de MariaAna. Eu não comprendia os extremismos de cada uma delas. Por ser um bisexual ser, concordei com o plano.
O plano seria o estudo da complexidade antroposocial excluindomo-nos da nossa própria visão da Sociedade. Permitiria talvez uma melhor compreensão da realidade.
AnaMaria lembrou-nos ainda de que uma teoria não é o reflexo do real. Nada a fazer. Os três embalámos plano fora. Cinco horas depois continuávamos sós naquela carruagem que nem se movera, nem viva alma aparecera. Soubemos pouco depois e pelo diálogo dos dois homens da limpeza ( nem sequer para nós olharam) que havia uma greve no metropolitano. Não haveria Afagos naquele dia.
Outro dia tentaríamos de novo.
Este é o meu texto sobre uma foto do Fábio Reoli. São várias fotos de sua autoria que estão disponíveis em seu blog para que os leitores escrevam um texto a respeito. "Coletivo: Caos".
Obrigado Fábio , pela inspiração que sua foto despoletou.

2008-06-23

Preliminares


Bebo de teu seio, o cálice transbordante,
estrangulante carícia , gozamos como loucos,
correndo o esplendoroso pôr de sol,
a deslocação do tempo reflectia-se nos teus olhos
meu coração pela milésima vez em teu ventre.

Ali perto árvores violentas e torturadas
acenam-nos com acordes de flautas selvagens.

“Repenetramo-nos”
entre os barulhos de materiais violentos
ontálgicos resvalamos na meta-cibernética
maior autonomia , menos isolamento,
refundimos o ar saturado de silêncios nutritivos.

Suculentos,
eis… os múltiplos sujeitos reflexivos,
outro senão… nós próprios orgasmos
na ciência dos imprecisos.

Um lapso de carícia, um aspecto,
várias complexidades.

Acalma-te
ainda
estamos nos preliminares.

2008-06-12

Estrada Arcoírica


Não eram os gestos mecânicos reflectidos em seres humanos de vai e vem citadino. Os beijinhos húmidos, ( pior se com batom) das saudações ou apertos de mãos deslavados, concretamente em frieza nos contextos urbanos num dos anos primeiros da era betãonante, marcavam o tempo. Radical “chippeias-te” como algo natural, mas os uivos e urros traem-te, trazendo-te de volta ao adubo orgânico que te circunscreve, mesmo assim olhas para todos os lados e nós estamos lá.
Subiste num carrossel rectilíneo que te leva para longe; transporto o primeiro horizonte amarelo, não há planícies nem vales: só planos acústicos se revelam por todo o corpo, o espírito entretanto prossegue viagem. Numa janela ainda de amarelados tons, debruçada uma carochinha oferece-se, de cílios postiços, desconfio mesmo do descomunal volume de seus seios, uma siliconica perspectiva
O tic tac tic audível, dos relógios de cera, estratégicamente posicionados nas mentes daqueles habitantes dão um toque uniforme, embora cada bairro tenha o seu próprio sol.
Mas a marcha do citado carrossel segue imparável de horizonte para horizonte como numa arcoírica estrada. O espírito, recordo, já lá vai, o corpo lento só agora chegou ao horizonte azulado; faz mais calor aqui , a decomposição ameaça, as viroses são vencedoras, inúmeras chaminés enchem o campo visual, os seus fumos azulam o horizonte, respira-se com dificuldade, compreende-se a fuga de muitos.
Muito mais à frente no limiar do horizonte rosa, o espírito, pacientemente sentado, espera pelo corpo. Naquele lugar não há temperaturas e os aromas são ténues e esbatidos. O espírito é por natureza um optimista e crente, ele acredita ainda que o corpo o alcançará. Receia porém o momento da passagem do corpo pelo horizonte negro.
Lá atrás o corpo revela-se e manifesta-se contra o horizonte verde. Pesticida furiosamente e com convicção os campos verdes de alimentos. Esta é a antecâmara do horizonte negro. Mas agora e já aqui chegado, subitamente reconhece-se como ser derrapante sem travões, amortecedores e para choques, busca rapidamente apoio num dos seus variados e inventados deuses mas não obtém resposta. A escuridão é total, o horizonte negro mantém–se firme nos seus intentos.
Há uma casa única ali, nem portas nem janelas, só uma ébano figura sentinela de imaculados cabelos e barba brancos, sobressai. A transparência de suas paredes é real. Reflectem-se nelas perfeitamente um todo de escuridão.
Perguntas-te naquele preciso instante se não há mais horizontes? Reparas que nem mais o ruído do carrossel ouves, Recordas que existe ( existiu?) uma arcoírica estrada. Não te lembras de nenhum sinal que tenhas visto a indicar-te algum desvio. Interrogas-te profundamente…

Cócórócó, cócóróco !!!
Porra ! O sacana do galo do vizinho acordara-me daquele estranho sonho.
Eram cinco horas da manhã.

2008-06-05

A Curvilínea Retórica.



A retórica… . bem falar.
Defina-se o género, as diferenças genéricas:
A curva… por instante, a do quadril,
entre a púbis e os seios.
Cuidado!
Há várias finalidades numa acção,
perigoso mesmo, é uma finalidade
em muitas acções.
A retórica… . é arte
Os comediógrafos observam
a pureza do vocabulário.
Lembro, há várias finalidades,
na curva d’um traseiro redondinho,
dialecta a minha essência ( erecto Ser)
em muitas acções.
No fundo é ela própria.
Tal como eu sou.
A sedução é a resposta sem questão
numa questão que não tem resposta.
Tu pensas… queres… sou.

2008-05-31

Odroca Ocifárgotro

Acordo Ortográfico? Ah,ah,ah
Então tomem lá este linguajar que tam bém é português.
Azores/ Portugal

Dei pincho, nem macaco
interessa é dar guinau,
darei uma gaitada à porta, imediatamente,
melhor vendo,
quedo-me de papo para o ar,
dei no vinte.
Saí com um foguete no rabo,
brava nem gueixa de baldio,
bum comâ bum!
bruto como os pés que me arrastam.
mas logo, logo caiu-me o queixo
Homessa!
Oló! Ubei credo andar!
Salvação
eu vou mais minha mâe, protejido
até parece mintira...
a bater as arcas, subi mais degrau
olho na faca , olho na lapa
Ó desgraça põe-te a fumo!
Abrenúncio, cão tenhoso,
dissera-me um corisco malamanhado.

2008-02-14

HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

Kabissi Ramos-Artista Angolano



Este artigo foi publicado no comentário de um artigo do Kimangola. A história é ou não é a soma ou divisão das partes. A fonte é anónima, mas o direito de divulgação é Universal. Há sempre o espaço e o tempo para contestar ou apoiar.


O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 02 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.
Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola). Kibala-Kuanza Sul
A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.
Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz e esposa Maria Eugénia Cruz , Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos e esposa Maria Judith dos Santos e Maria da Conceição Boavida que em conjunto com a esposa do Dr Hugo José Azancot de Menezes a Maria de La Salette Guerra de Menezes criam o primeiro núcleo da OMA ( fundada a organização das mulheres angolanas ) sendo cinco as fundadoras da OMA ( Ruth Lara ,Maria de La Salete Guerra de Menezes ,Maria da Conceição Boavida ( esposa do Dr Américo Boavida), Maria Judith dos Santos (esposa de um dos fundadores do M.P.L.A Dr Eduardo dos Santos) ,Helena Trovoada (esposa de Miguel Trovoada antigo presidente de São Tomé e Príncipe).
A Maria De La Salette como militante participa em diversas actividades da OMA e em sua casa aloja a Diolinda Rodrigues de Almeida e Matias Rodrigues Miguéis .
Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.
A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldville ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).
Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês. Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters e a esposa tornando-se locutora da rádio GHANA para emissões em língua portuguesa.
Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.
Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade. Estas emissões são ouvidas por todos cantos de Angola.
Em 1966´é criada a CLSTP (Comité de libertação de São Tomé e Príncipe ),sendo Hugo um dos fundadores.
Neste mesmo ano dá-se o golpe de estado, e Nkwme Nkruma é deposto. Nesta sequência ,Hugo de Menezes como representante dos interesses do MPLA em Accra ,exilou-se na embaixada de Cuba com ordem de Fidel Castro. Com o golpe de estado, as representações diplomáticas que praticavam uma política favorável a Nkwme Nkruma são obrigadas a abandonar Ghana .Nesta sequência , Hugo foge com a família para o Togo.
Em 1967 Dr Hugo José Azancot parte com esposa para a república popular do Congo - Dolisie onde ambos leccionam no Internato de 4 de Fevereiro e dão apoio aos guerrilheiros das bases em especial á Base Augusto Ngangula ,trabalhando paralelamente para o estado Congolês para poder custear as despesas familhares para que seu esposo tivesse uma disponibilidade total no M.P.L.A sem qualquer remuneração.

Lino Damião-Artista Angolano
Em 1968,Agostinho Neto actual presidente do MPLA convida-o a regressar para o movimento no Congo Brazzaville como médico da segunda região militar: Dirige o SAM e dá assistência médica a todos os militantes que vivem a aquela zona. Acompanha os guerrilheiros nas suas bases ,no interior do território Angolano, onde é alcunhado “ CALA a BOCA” por atravessar essa zona considerada perigosa sempre em silêncio.
Hugo de Menezes colabora na abertura do primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário em Dolisie ,onde ele e sua esposa dão aulas.

Saturado dos conflitos internos no MPLA ,aliado a difícil e prolongada vida de sobrevivência ,em 1972 parte para Brazzaville. Em 1973,descontente com a situação no MPLA e a falta de democraticidade interna ,foi ,com os irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade , Gentil Viana e outros ,signatários do « Manifesto dos 19», que daria lugar a revolta activa. Neste mesmo ano, participa no congresso de Lusaka pela revolta activa.
Em 1974 entra em Angola ,juntamente com Liceu Vieira Dias e Maria de Céu Carmo Reis ( Depois da chegada a Luanda a saída do aeroporto ,um grupo de pessoas organizadas apedrejou o Hugo de tal forma que foi necessário a intervenção do próprio Liceu Vieira Dias). Em 1977 é convidado para o cargo de director do hospital Maria Pia onde exerce durante alguns anos .
Na década de 80 exerce o cargo de presidente da junta médica nacional ,dirige e elabora o primeiro simpósio nacional de remédios. Em 1992 participa na formação do PRD ( partido renovador democrático).
Em 1997-1998 é diagnosticado cancro.A 11 de Maio de 2000 morre Azancot de Menezes, figura mítica da historia Angolana.


Comentário/resposta ao artigo " São Tomé e Principe Espaço de Miscinegenação"

2008-02-06

...Ximbueko disse...

A arte está afastada da “ verdade “ ou se quiserem do ” cerne “ ( a soma dos vários componentes que constituem o objecto observado ), os seus interiores são ignorados total ou parcialmente. O que se considera belo ( forma exterior ) depende da época e das culturas. Assim a beleza não é algo absoluto e imutável , mesmo se nos referimos a Deuses , Santos ou Ideias; variadíssimos exemplos de conceitos contraditórios mostram nos a escultura , a pintura , e a literatura , sobre o Belo.

Mas convém não esquecer o poder da beleza exterior: Menelau depois de ter Tróia vencida, tentará matar a esposa traidora ( de irresistível beleza ) , mas o seu braço fica paralisado ao ver o belo seio nu de Helena.

Os gregos ( alguns ) simplificam as coisas; o oráculo de Delfos respondia: “O mais justo, é o mais belo”.
Como poderemos analisar estes díspares conceitos. Por um lado o exterior ( sem os conteúdos ) entendido como belo, por outro este mesmo exterior nada significa , pois sendo justo ( algo dos interiores ) é belo. Eu , Ximbueko que venho e ando nos meandros da loucura, com propriedade e direito vos digo: trata se de uma bipolar conceitualidade que vive e se alimenta de eufóricos ou depressivos estados.
Okay , okay: mesmo as nossas diferentes idades fazem nos olhar e pensar formas diferentes do Belo. Em todas as acções humanas, o impetuoso e o impreciso manifestam se primeiro; o calmo e o exacto vem a seguir.
Como chegar a uma primeira compreensão da beleza se as várias artes não o exprimem unitariamente? A poesia encanta e faz alegres os seres humanos, nos hinos é a harmonia do cosmos, para a escultura a apropriada medida das partes, na retórica o ritmo certo.

Mas convém não esquecer que a beleza não limita os problemas; é só lembrar as divas/ estrelas ( hollyoodianas ) que se suicidam ou encharcam de químicos – álcool , psicotrópicos , anfetaminas etc.)

Quero dizer, existirá uma compreensão consciente da beleza ? É que existem caminhos armadilhados. As diversas épocas que assumiram como autêntica e original, a beleza, foram fictícias sendo produzidas por projecção sobre o passado, com visões modernas do mundo – atente se no classicismo de Winckelmann.
Platão ( século V-IV a.C. ) falou do belo absoluto: “ Portanto o que deveríamos nós pensar se, acontecesse de alguém ver o belo em si absoluto, puro , não misturado e, de modo nenhum contaminado por carnes humanas e por cores e por outras pequenezes mortais, mas pudesse contemplar como forma única o próprio Belo Divino? Será ou não compreensível que olhando para a beleza somente com aquilo com o que é visível, esse acto gerará não puras imagens de virtude”.
Que virtude é esta então que nasce e resume se à forma e impressão do exterior ?
Bem já ouvi falar sobre um qualquer jogador de futebol que tendo uma técnica apurada, é apelidado de virtuoso ( O craque tem virtuosismo). Não deve ser esta a virtude que o Platão falava.
…Ximbueko disse…

2008-02-03

IMPOSSÍVEIS e QUIMÉRICOS

Teu rosto todo arde
os olhos flamejam
vejo mil lucernas.

Fímbria ondulante
que me desmaia
num suspiro
ténue.

Todos os impossíveis e quiméricos,
alcanço em ti.
Não rejeito o cio
que humedece me.
Do nosso esplendor,
nem vergonha,
nem saciedade.

Coito te as vagas
alterosas
batendo em mim.

Membranosa
vúlvica prece,
amaro
em ti,
qual bote
salva -vidas.

2008-02-01

A FORMÍGRAFA


Formigavam as formigas
de um buraquinho no chão
todas muito direitinhas
numa fila perfilada
que contornava o torrão.
Eis senão quando uma delas,
sem motivo, nem razão,
deu dois passos de guinada
e mudou de direcção.

Foi a fila para um lado
e a formiga dissidente
para outro, bem diferente.

E assim, sem companhia,
num andar desassombrado,
caminhou até achar
o abrigo de um telhado.

Devagar, mas persistente,
galgou, cansada, um degrau,
marinhou por um sobrado,
contornou uma cadeira,
subiu a perna da mesa
e pousou sobre um papel
onde havia quatro versos
que a prenderam como mel.

Era ali que queria estar
e acabar o seu dia
entre as curvas dançarinas
das letrinhas elegantes.
Queria ser caligrafia.

Pensou, talvez ser acento...
Mas um grave, nem pensar.
E agudo muito menos...
Não suportava a tortura.
De tanto se inclinar
ficava numa tontura.
Com um jeito de coluna
podia ser cincunflexo.
Mas a torção era um excesso!
Podia, se bem quisesse
pôr um ar mais donairoso,
ser um til bem saboroso...
E deitada bem esticada
tornava se travessão...

Mas não gostava de nada
Não achava a vocação.

Foi então, desanimada,
que parou no fim da linha,
encolheu se, redondinha,
a sentir se uma falhada.

E assim adormeceu.

Vai daí chega o poeta
que fora dar um passeio
a espairecer a cabeça
do desespero de ter
um poema em formação
e não saber que escrever
para lhe dar conclusão.

Olha então para o papel
e solta um grito espantado!
O poema interrompido,
vai se a ver , estava acabado.

Abriu um olho a formiga
e, espertinha, percebeu.
Satisfeita, regalada,
ainda mais se encolheu.
Estava agora consolada.
Tinha um destino, afinal.
Ia ser ponto final.

MariaAmares

2008-01-24

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE ESPAÇO DE MISCIGENAÇÃO

Não sou historiador. Perdoem me então a ousadia de escrever algo da história.
Mas como ando sempre nas prosas e poemas " de cabeça na lua" sinto de quando em vez necessidade de baixar ao terreno humano.

As obras apresentadas são todas de artistas santomenses e podem ser vistas neste endereço:

http://www.artafrica.info/html/paises/saotome.php


Foto do arquivo de Kimangola




ENQUADRAMENTO GEOGRÁFICO NO CONTINENTE AFRICANO

Partindo do pressuposto de que não são só os factos políticos que determinam a evolução humana sendo eles mais causas e consequências do desenvolvimento das instituições e ideologias que por sua vez são fortemente influenciadas pela constância das condições do meio ambiente que permanentemente envolve qualquer ser humano considera-se que um historiador remetido ao uso exclusivo de dados históricos, limita o seu campo de visão e no caso específico do continente Africano agravado pela escassez de documentos escritos, obrigatórias se tornam as abordagens em diálogos interdisciplinares contínuos. A arqueologia certamente terá um papel muito importante a desempenhar no caminho da aproximação à verdade.
A geografia e a história explicam muito do que é África. É o único continente que se estende pelas zonas temperadas do Norte e do Sul; possui uma grande área central tropical no meio de duas estreitas zonas temperadas, uma a norte outra a sul.
Quanto à história do ser humano aponta-se África como o local onde há sete milhões de anos as linhas evolucionárias dos primatas e dos pré-hominídeos divergiram.
As ilhas de São Tomé , Príncipe , situam-se no Golfo da Guiné , fazem parte de um conjunto de aflorantes vulcânicos no prolongamento da cordilheira dos Camarões , centro-oeste da África, Oceano Atlântico , litoral recortado por baías e escarpas , interior montanhoso com uma área de 964 km² de clima equatorial chuvoso .


DESCOBERTA - CLIMA – POVOAMENTO

Terá sido durante a vigência de um contrato entre a Coroa portuguesa e o mercador Fernão Gomes, que estas ilhas do Golfo da Guiné foram descobertas, no início da década de 1470. Era concedido a Fernão Gomes o monopólio do Comércio na Costa da Guiné. Devido à sua localização possuem características equatoriais no seu clima e vegetação. O clima quente e húmido, e a vegetação exuberante daí resultantes, têm profundas consequências na colonização das ilhas e na vida e organização das populações que ali se instalam.
A primeira ilha a ser ocupada é a de São Tomé. Não é a maior ilha mas possui uma melhor colocação na circulação de ventos e correntes e por estar mais afastada do continente previa-se a sua utilização como escala, o que veio a comprovar-se , durante os séculos seguintes .Com um relevo menos agreste, rica de cursos de água e um clima menos “escaldante” do que o de Fernando Pó e aparentemente não habitada, facilitava a possibilidade de colonização com terras fáceis de trabalhar.
Aquando da chegada dos portugueses, provavelmente em 21 de Dezembro de 1471, transforma-se desde logo no núcleo colonizador que se espalha pelas feitorias da Guiné, afirmando-se como um ponto importante do tráfico negreiro para as Américas e Brasil, e como produtora de elevado volume de açúcares servindo os principais portos europeus da época.
Convenhamos, a expansão portuguesa não é pertença exclusiva dos portugueses, pois desde cedo recorreram a técnicas, a capitais e especialistas estrangeiros. Reconheça-se no entanto a capacidade para reconhecer e usar os meios técnicos avançados e que se apropriavam aos objectivos a atingir. Com a crescente procura do açúcar, no mercado europeu, a partir dos finais do século XV, abriu-se um quadro económico, ditado pelo objectivo central do processo colonizador, dando origem ao “ ciclo do açúcar” que passou a ser o motor da economia.
Um factor fundamental para o desenvolvimento da produção açucareira, baseou-se sem dúvida na existência de mão de obra abundante e barata. Assim ao comércio transariano de escravos negros praticado pelos Árabes em direcção ao Mediterrâneo, junta se o comércio de escravos negros africanos promovido e desenvolvido pelos europeus.
São Tomé transforma-se num espaço não só de “experimentação” de plantas importadas, mas também espaço de miscigenação por excelência.

Eva Carvalho

CICLO DO AÇUCAR
Colonização

Este período do ciclo do açúcar – idade colonial/ período de resistência ( 1500-1822) e que desde o seu inicio coincide com a importação de mão-de obra saída da costa ocidental africana, para incremento da cultura da cana-de-açucar, trazida provavelmente da ilha da Madeira assim como a organização em Capitania como atesta a carta régia de 24 de Setembro de 1485 do rei de Portugal D. João II.
Iniciava se assim nestas ilhas o sistema de trabalho escravo constituindo se São Tomé e Príncipe também como entreposto comercial do tráfego de escravos. No intuito de aumentar a produção, foram concedidos um grande número de privilégios aos portugueses na sua maioria degradados e filhos dos judeus arrancados aos seus pais , oriundos dos territórios sob controlo português . No entanto as condições do clima equatorial provocava nos europeus altos índices de mortandade e obstava à vinda de mais gente. Para além de portugueses chegam também castelhanos, franceses e genoveses.
O grupo de Africanos que se começa a formar não é homogéneo em virtude das diferentes proveniências: do Benim, Camerões, Guiné, Nigéria, Angola, etc.
Um clima de agitação social acompanha desde o princípio todo este processo. Factores de ordem interna e externa manifestam se constantemente.

Manuel Ceita Dias dos Ramos

Classes Sociais

Por um lado os senhores feudais, ricos proprietários que são os donos dos meios de produção que não olham a meios para sacar o lucro; junte se o Clero, padres católicos que acompanham as expedições militares e que ao longo do processo colonial tiveram posição bem distinta da doutrina que pregavam. Como classe abastada que na verdade era este Clero esteve quase sempre rivalizando com os ricos proprietários.
Uma classe branca ( colonos ) não proprietários e alguns mestiços pois emanara do Rei a recomendação do bom tratamento aos filhos dos judeus, mulatos que pudessem servir ofícios como os brancos. Convém aqui apontar a data de 1524 – concessão do primeiro foral ao arquipélago, mais concretamente à ilha de São Tomé, a existência real do primeiro grupo de mulatos , os filhos da terra, que se constituem como fração minoritária de africanos livres. A criação deste grupo mestiço, pelos portugueses, tornou se indispensável tanto para o povoamento das ilhas, como para a constituição de um grupo social adaptado ao contexto ecológico local, afirmando se como único grupo capaz de assegurar a gestão dos projectos dos portugueses. Porém este movimento acabou por servir também os interesses dos africanos pois criavam se seres mestiços culturalmente marcados pela família africana, o que lhes assegurava a sua sociabilização. Do casamento dos comerciantes europeus com as filhas dos africanos de estatuto elevado, nasciam estes mulatos. Os mulatos não possuem uma família europeia, mesmo se o pai – geralmente branco - está presente; a família é da mãe africana. Tornam se num grupo de pessoas possantes, têm vinte a cinquenta escravos cada um
Num ínfimo escalão a classe social mais numerosa, dos escravos, muito heterogénea na sua composição, com características físicas, culturais, de língua dos seus elementos, bastante diferenciadas, comprovando a sua proveniência de vários pontos da costa ocidental africana. A mais desumana exploração que sobre eles se abatia, funcionava como um elo de ligação. A estes escravos propriedade dos moradores da ilha de São Tomé, é necessário juntar outros escravos negros, os escravos de resgate.
Todos estes grupos africanos de interesses divergentes e por vezes contraditório, participam de forma dinâmica no povoamento e na colonização da ilha, seja sob orientação dos europeus, seja mobilizando se em função dos seus próprios objectivos.

Felisberto da Graça Castilho
O Engenho

O engenho célula base de todo o sistema produtivo, não significa só o moinho onde se processava as várias fases da produção do açúcar, designava um conjunto complexo de construções, espaços e homens indispensáveis ao próprio processo de produção. Constituído pelo moinho , elemento central , pelas casas de madeira do proprietário e dos mestres do açúcar, situadas à volta do moinho, pelas habitações dos escravos, mais afastadas, na orla da floresta circundante, rodeadas de uma pequena horta, pelos edifícios necessários ao fabrico e à armazenagem do açúcar e às outras actividades indispensáveis à vida da população, e ainda pelas plantações de cana sacarina, situados nos campos mais férteis e melhor irrigados.
Formam se “domínios”, no interior dos quais se articulava um duplo sistema: por um lado, uma produção agrícola destinada à subsistência da mão-de-obra escrava e ao aprovisionamento dos navios e, por outro, a monocultura da cana e fabrico do açúcar. As várias concessões ou “sesmarias” e algumas cartas de alforria que ao longo do século XVI foram sendo produzidas pelos portugueses , ajudam ao fabrico destes domínios.

Armindo Machado

OS ESCRAVOS

Debrucemo nos agora sobre o quotidiano dos escravos e seu trabalho nestes domínios. Cada habitante compra escravos negros com as suas negras e emprega os ( aos casais ) para cultivar as terras fazendo as plantações. Há homens ricos que possuem até cerca de trezentos negros e negras a trabalhar para si toda a semana excepto ao sábado, onde neste dia os escravos semeiam para si, milho zaburro, raízes de inhame e muitas hortaliças. Estes homens ricos não vestem , não alimentam nem fazem casas , aos escravos. São os próprios escravos que se encarregam destas funções. O que pode parecer um regime de trabalho ditado por uma tolerância ou humanismo, nada mais é do que um sistema para optimização dos lucros. Esta técnica não provém dos portugueses mas sim uma adopção do já praticado em África, sendo a maneira mais capaz de permitir dispor de uma força de trabalho numerosa e auto-alimentada.. A cultura da planta desenrolava se ao longo de todo o ano sendo o escravo continuamente mobilizado para os inúmeros, longos e pesados trabalhos agrícolas a que se juntavam as duras tarefas destinadas a transformar a cana em açúcar. Convém não esquecer que este ciclo de trabalho começava já no abate das árvores e a sua redução a cinzas que serviam como fertilizantes da terra assim como na preparação dos terrenos para a plantação.
O processo de povoamento organizado pelos Portugueses é orientado para as regiões litorais do norte e do nordeste de São Tomé, por aí se encontrarem as melhores condições para introduzir e desenvolver a cultura, produção e posterior comercialização do açucar. Este cenário deixava vastas áreas livres quer no interior ou noutras zonas despovoadas que viriam a ser ocupadas pelos escravos fugidos das plantações, quer dizer que o processo de povoamento do interior da ilha é consequência da decisão dos Africanos e contra os portugueses. As duríssimas condições de vida e de trabalho estavam na base destas fugas. Foi daqui, mais tarde que partiram os ataques aos engenhos e às regiões sob controlo português.
Entramos assim no início da segunda metade do século XVI, com duas particularidades a destacarem se: uma agitação social provocada pelos Mulatos ,” os filhos da terra”, descontentes com a discriminação política de que eram alvos em benefício dos Portugueses e a ameaça negra que vinha do mato provocam um clima de insegurança. No último quartel do século intensificam se as revoltas que se multiplicam nas roças e ataques cada vez mais frequentes aos engenhos e ás plantações.
No ano de 1595 um negro da ilha de São Tomé, chamado Amador proclamou se rei da ilha. Amador fora escravo de D.Ferdinand , comandava um exército organizado em torno de cinco chefes principais, movimentando se segundo um plano definido para atacar os engenhos e a cidade. O choque pôs frente a frente uma grande massa de homens armados de arcos e flechas, contra um número mais reduzido, armados com arcabuzes. A vitória coube como quase sempre no continente africano, aos europeus cujas tropas incluíam Negros e Mulatos. Derrotados os cinco chefes africanos decidem entregar aos europeus, Amador, que o enforcaram.

Kwame de Sousa

OS SÉCULOS XVII E XVIII
Instabilidade

Na entrada para o século XVII, grande parte dos proprietários ricos começam a emigrar para o Brasil que desponta como nova fonte de produção de açúcar. O clima de insegurança e instabilidade vivido com os sucessivos ataques dos “ negros alevantados” e a incapacidade das autoridades portuguesas em controlar o espaço santomense, agora ocupado pelos Africanos constitui se como motivo principal do deslocamento para o Brasil. Agravando aquela situação, a corrupção e a desorganização dos poderes públicos, a discórdia permanente entre as autoridades religiosas e civis, o ataque dos corsários e ainda a doença que ataca a cana sacarina, provocando a destruição das colheitas.
São Tomé e Príncipe afirma se como um espaço privilegiado, dada as suas características ecológicas e posição geográfica, para:
1) Centros de introdução e “ensaio” de plantas e de técnicas agrícolas novas;
2) Pontos de apoio aos navios, de início apenas portugueses, depois também estrangeiros, que ali procuram se abastecer;
3) “Armazéns” destinados à redistribuição de escravos vindos do continente e destinados essencialmente ao Novo Mundo.
Ressalta também claramente desta época, um sistema de produção , já consolidado, que era o sustento de todos que habitavam as ilhas e dos abastecimentos em víveres aos navios, vindo mais uma vez da classe escrava, que produzia para além do açúcar, inhames, batata doce, milho em suma a produção agrícola de sustento.
Começa se a sedimentar a combinação entre elementos culturais africanos de origem diversa e da adesão a propostas europeias após duas ou três gerações, uma parte do poder económico do arquipélago fica nas mãos de uma população crioula nascida deste encontro: os “forros”, que são a característica principal de São Tomé e Príncipe em relação às outras colónias, com seu próprio idioma.

O Negro como mercadoria

Iniciava se uma nova era , fim da primeira fase da colonização. Com o chamamento do Brasil e do declínio da produção açucareira para os colonialistas a importância da ilha radicava no facto de servir de entreposto de escravos. Todos os navios com destino ao Brasil via São Tomé e Príncipe, eram obrigados a pagar impostos, que forneciam ao fisco português receitas consideráveis. Milhões de africanos foram transportados, em condições desumanas , sobretudo para as Américas durante os séculos XVII e XVIII principalmente.
Ao iniciar se a segunda metade do século XVIII, já as ilhas de São Tomé e Príncipe vinham sendo um local de contínua confluência de povos, raças e culturas, cujas consequências se traduziam em complexos fenómenos socioculturais. Entre eles sobressaíam a mestiçagem, a assimilação e a rejeição culturais que , por vezes, explodiam em violentos movimentos de ruptura. Dos povos e das culturas transferidos, das línguas postas em convívio, haviam se originado importantes sínteses, outro povo.
A economia de São Tomé e Príncipe atravessa assim um período de estagnação ,pelos motivos já apontados. É notória a reafricanização da população. Do ponto de vista numérico os “ filhos da terra” tornam se o elemento predominante. Fortalecem as suas posições económico-sociais sem contudo serem um grupo heterogéneo. Formou se uma aristocracia crioula que se empenhava em enviar seus filhos para seminários no Brasil e em Portugal.

Edilson Chong Dias

O CICLO DO CAFÉ E CACAU
A Roça

No século XIX com a introdução das culturas do café e do cacau inicia se aqui uma terceira fase da colonização das ilhas de São Tomé e Príncipe; com a expropriação fraudulenta e violenta das propriedades aos locais. A necessidade mais uma vez de mão-de-obra é premente. A população nativa recusa se a trabalhar nas plantações. Existe no entanto um dado novo na conjuntura mundial e oficialmente (1826) o governo de Lisboa promulga o código para conter o tráfego de escravos, mas só na década de 80 a escravatura é abolida. Os trabalhadores não são mais escravos mas “ trabalhadores contratuais voluntários” trazidos das outras colónias portuguesas (Angola, Cabo Verde e Moçambique) facto que origina o aparecimento das unidades de produção de cacau e café denominadas roças. , A roça é um espaço agrícola, organizam uma nova base de povoamento e colonização, sendo constituída pela casa da administração, a sanzala dos trabalhadores, os armazéns, os fermentadores e secadores de produtos, o hospital formando autênticas povoações.

Abolição da escravatura

A frente do boicote internacional de São Tomé e Príncipe decretado em 1909 após as divulgações feitas sobre o trabalho forçado dos “ trabalhadores contratuais”, as roças “humanisam-se” e o rendimento diminui. No fim dos anos 40, o governador está determinado a regularizar o problema da mão de obra, forçando os “forros” ao trabalho nas “roças”.

Nacionalismo

A tensão provoca então o massacre de Batepá, a 3 de Fevereiro de 1953, que teria feito mais de 1.000 mortes por tortura eléctrica e afogamento, principalmente. Este episódio marca o início do nacionalismo santomense, com a criação, em 1960 pela elite, forros em exílio do CLSTP (Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe) que em seguida, em 1974, virá a ser o MLSTP (Movimento de libertação de São Tomé e Príncipe).
José Manuel Mendonça Gracias

2008-01-16

MARIAMARES


Maria Amares,
Amaste…
Partiste como a mim chegaste
serena , um afago doce , preenchido,


porta só encostada.

Escrevo te em rosa cor
foi assim que te conheci.
De mim asseguro te , não partiste…

Tenho te aqui bem perto ,
no peito aberto,
Coração.

Esta oceânica lágrima,
rola serena , roseada
em mim
em direção a ti.

2008-01-13

Cópia repetitiva


Caíra por acidente numa fotocopiadora.
Copiava se vezes sem conta,
vítima da causalidade mútua,
[ele e a fotocopiadora]
Preto no branco e branco no preto
gémeos inversos do universo
fantasmas de um gesto.

É a pena do escritor
herdeiro remoto do drama cósmico.

E mais cópias de si próprio.
Num mecanismo encravado,
repetitivo movimento da cópia,
quase demónio imemorial
inverno estéril resplendeu
o tédio.

Fartou se,
muniu se do bastão ecológico,
era de madeira, de árvore,
destruiu, num golpe rápido
a fotocopiadora.

Doravante,
restaria mudo.

2008-01-06

(Ar)Rebento a cada sensação de abatimento.


Não compensa andar.
Rastejar é único caminho.
Será a Vida ou é a Economia…
Um mundo semelhante ao mais
estéticamente horrível
o essencial visível é um saco de Bolor,
fome no meio de um lixo
onde já nem restos há de comida.
Suspiro de ansiedade no acelerar do processo.

No todo há uma forma de vida
seres humanos passam fome num pátio do Mundo,
alguns ganham dinheiro
caçando borboletas,
as mortas valem triplos das vivas.

Dentaduras encontradas no lixo
como forma de protesto.

O Poder dará
novas dentaduras,
assim todos podem rir.

2007-12-31

DEMONOLOGIA


O morto jurara ter estado só na sua última viagem enquanto vivo. Tivera amores vários, promessas, ardores alguns, mas viera sozinho. Tudo eram contrários. Chorava quando estava contente o frio era o calor. Um galo celestial, despertara novas auroras, Estar comigo é um contrário de solidão. Escarneces dos meus pensamentos. Mas quem te julgas? Uma Fénix imortalizada numa estúpida ilusão do medo de viver ? de estar ?

Farei exigência de um ano platónico, tudo na sua posição inicial, cumprido o enorme ciclo astronómico, perguntar te ei se viste o influxo dos planetas.
Qual loucura qual QUÊ, ignóbil serzinho mesquinho que te escondes nas asas transparentes dos grupos. Nunca deixei de te ver.

Eu sou o herdeiro de mim mesmo, por isso não estranhes a minha conduta.
Zombo dos terapeutas que prescrevem remédios das cinzas, querendo dizer O FOGO. Afinal somos um espelho ou imagem de um Universo?
Diz me, fala me ao coração… Vens de um ovo, pássaro imortal, ou das cinzas?
Vejo te simples testemunha da tua idade.
Vi te sempre como Fada a confundir e a fazer perder os navegantes. Como a Tartaruga sobrenatural ou angelical que saiu de um ribeiro, julgas te, dominadora, um animal espiritual. Cuidado , um dia o Devorador das Sombras tomará conta de ti.
Entretanto deixei de acreditar em ti .
E não me sinto só. Pondero furiosamente as virtudes e as culpas, estou ocupado.
Vejo te só como o guia do morto nas regiões ultra-terrenas.

2007-12-23

DESEJO


MAL /NATAL

Eis então os meus votos de Natal...

.Sobre toda a reunião de humanos que bebem dançam e petiscam(festas religiosas ou pagâs) paira a ameaça do fracasso, do entediante como se os Deuses tivessem abandonado a cena.

Desejei para vocês, o contrário da compra da felicidade; não se compra o Ser, o ter esse sim , é vendável. Assim desejei que todos fossem infelizes, tristes,frustrados, depressivos, querendo o mal uns dos outros, renegassem o Deus ,o pai, a educação, mas só naquelas 24 horas (Mal/Natal) . Desejei que se institucionalizasse o “tem que ser” desse dia, doravante, e até vermos os seus resultados.

Um embuste da espontaneidade, onde o rir e a alegria são sempre um pouco forçados. O fervor não se encomenda e por vezes faz-nos a má surpresa de se furtar aos encontros que lhe marcamos.

Desejei que, no dia a seguir, encontraria as pessoas mais afectuosas, alegres vibrantes, de bem consigo próprias.Desejei que, os dias fossem assim até ao próximo dia do Mal/Natal e como o“tem que ser” tem muita força passaríamos a ter exactamente o contrário; o resto do ano , muito amor, aceitação, tolerância, autenticidade, simpatia; Assim institucionalizado, até vermos os seus resultados.

Quando todos os ingredientes necessários como a compra,consumismo, música, drogas, sexo não conseguemrealizar o precipitado mágico, então a graça ocasional da festa resulta em melancolia.

Continuo a desejar, experimentar uma só vez... ao menos, só para ver.

Desejo.

2007-12-20

Nuno Florindo d' Assunção Silva

Matumbolândia
Apesar dos contrasins entrementes ,das idealoconvicções laboriosamente esquecidas,estamos em andamento antes da partida,parados em grande aceleramento.

P.S. Para Kimangola Matumbolândia é por todo esse canto onde se fala a portuguesa lingua.Logo eu também sou um dos Matumbos.


Estudante São-Tomense nos Açores
sem bolsa há três anos

Chama-se Nuno Florindo d'Assunção Silva. É estudante bolseiro enviado para Portugal onde se licenciou no curso de Estudos Europeus e Política Internacional. Está em Açores a fazer mestrado e há três anos que não recebe as suas prestações mensais de bolsa de estudo. Mas 300 Euros saem todos os meses de Finanças, mas não entram na sua conta bancária. Desconfia da ex ministra da educação, Maria de Fátima Leite Almeida e da embaixada de São Tomé e Príncipe em Portugal. Por isso, diz que vai pedir um inquérito ao ministério público.
Nuno Silva enviou uma carta ao Vitrina que pede para publicar a sua história. Diz ser possuidor de uma lista comprovativa de que o seu dinheiro sai todos os meses das Finanças, mas não compreende porque não entra na sua conta.Suspeita de que a prestação mensal da sua bolsa de estudo esteja a ser desviado das suas contas.
“Procurei que as autoridades nacional interviesse no sentido de me responderem, mas nada foi-me dito até ao presente momento”, disse Nuno Silva, para depois sublinhar que “Vi-me obrigado a recorrer aos meios de comunicação social, como forma de informar a opinião pública nacional, da ignóbil situação de que o Estado de São Tomé e Príncipe, na pessoa da Ministra da Educação Maria de Fátima Leite Almeida, e a Embaixada de São Tomé e Príncipe e Lisboa, me submeteu”. Ressalva que, de facto, “há mais de três anos que não me pagam qualquer prestação de bolsa de estudos, e não me respondem sobre o meu pedido de bolsa de estudos de Mestrado, nem sobre o Bilhete de regresso para São Tomé e Príncipe. Estou sabendo que os 300 Euros da minha bolsa de Estudos tem saído, conforme as listas, da Repartição das Finanças, mas nunca entra na minha conta bancária”, enfatiza. Natural da freguesia da Conceição, Nuno Florindo d Assunção Silva afirma que numa acção corroborada pela sua Universidade em Açores e outras entidades como a Associação dos Imigrantes tem sido bastante “insistente e procurados que o governo são-tomense dê uma resposta sobre a situação que enfrenta, mas “nada foi dito até ao presente”.
Toda a tentativa para encontrar uma resposta sobre esse assunto junto do ministério da educação, juventude e desporto não surtiu efeito. O Vitrina promete insistir até que as autoridades dêem uma explicação plausível sobre o assunto.
M. Barros
Ver: http://www.vitrina.st/Vitrina2.htm

2007-12-16

EVA OU LILITH?

Têm uma forma indistinta apesar do rímel dispendioso Tratam se de serpentes, assumem forma humana , são cortejadas , quais panteras indicam um animal assaz diferente.
Mascaram se de dolces e gabanas ou outras fragâncias, substâncias raras em lugares comuns, seu próprio cheiro não têm.
Um urbano produto de voz melodiosa, mentira aceite.
Respiração ofegante, a sua formosura deleita os animais , não têm outro inimigo a não ser o dragão de morada incerta, cuja língua é mortal. Cheias de brilho intenso, cegam, abrem suas fendas, aos olhares , debaixo de muita roupa de marca famosa, coquetes revêm se nos anéis de fumo, de cigarro entre dedos, máscula pose.

Por vezes o dragão ri, não sei como cavalga no vento nem como chega ao céu mais veloz do que o pássaro e os ventos.

As de forma indistinta prostituem se não por parcas posses, almejam o topo das coisas , olham de cima para baixo das suas camadas cremes embelezadores de cútis , escondem se , não se autenticam.
Entesam se na futilidade, de gritinho em gritinho estéril e histérico, pululam por entre a ignorância da pinderice, sentam se princesas nos tronos carnosos vúlvicos, figuras de sílfide, orgulhosas mantêm o salamandrico animal frio.
Esperarei por vós no enrugamento irreversível das vossas vindouras epidermes..

“Porque antes de Eva foi Lilith”

2007-12-11

ANO I


Num príncipio KOLUKIano, e lado a lado não reparei no tempo.OLHARES.COM algum critério, PALAVROSSAVRVSREXamente aguilho ei me, mantive me desperto.
“ …Entre a nau e o caos: tormenta desde o abismo: sentimento esperança: farol de mim…” Assim falou MARIA MUADI.
Nuvens passaram , mil poesias também, adociquei me, amaciei me, embora o efeito estufa aumentasse.
CONTRATODOS, rocei O KAFÉ, MILLÔR me extasiei entre LARANJA LIMA, UMA PORTA SÒ ENCOSTADA em KITANDAS ,KIMBUNDU e MWANGOLÉS me abasteci.
FALOPIEI me em escoras e pilares vérsicos; beleza e talento é sempre uma excelsa combinação.
VEGETANDO mantive meus pés assentes no vulcão, o espírito também.
Incursionei me pelo caminho académico, do conhecimento histórico precisei: acedi assim ao PATRIMÒNIO CULTURAL. Aprender é meu destino e regra.
Uma despalavra reconhecida aos que me não leram, ou que por engano me desnudaram a pose bloguiana. Foi seguramente mote para escrever mais sempre mais. Não desisti, a eles devo.
Não admito que alguém queira ser como eu. Não quero ser líder. Quero mesmo é aproximar me de mim. Na verdadeira arte de viver este é o paradigma: quanto mais nos compreendem (a via do “sucesso” por exemplo) mais a pura criatividade se afasta de nós, a vulgaridade nos faz companhia
No fundo, não pretendo Estar compreendido, mas Ser anormal aceite.
Assim das minhas 165 postagens de idade vos convido para o BATUKE.
Traje obrigatório: O lugar mais alto das vossas existências.
Preço da entrada: ALEGRIA

De Livrevontade a todos ( Obrigado nunca).


Rapariga da Gabela/Kuanza Sul